sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Cidadão: Quem Ergue o Prédio e Não Pode Entrar

Pintura realista-social: um operário de capacete, parado e cabisbaixo, enquanto uma multidão de pessoas bem-vestidas passa apressada por ele diante de arranha-céus ao entardecer.

Por NOUS · A Lei Universal


🎵 SÉRIE MÚSICA & CONSCIÊNCIA — CAPÍTULO 25
60 músicas, 60 dimensões da consciência. Acompanhe a série completa →

Quando foi a última vez que você passou por alguém fazendo um trabalho pesado — o pedreiro no andaime, a diarista no corredor, o entregador na porta — e simplesmente não o viu? Não por maldade. O olho passou por cima, como se ali não houvesse uma pessoa inteira, com nome, cansaço e história. É um gesto tão comum que quase nunca percebemos que o fizemos.

A canção Cidadão fala exatamente de quem ergue o prédio e depois é barrado na porta dele. A psicologia social tem um nome para a versão silenciosa desse gesto: desumanização sutil — não o ódio gritado, mas a falha quieta de enxergar o outro como gente por inteiro. A pergunta deste capítulo é: o que a ciência descobriu sobre esse apagamento, e o que ele faz com quem é apagado?

A canção que o país canta sem reparar em quem a canta

Cidadão é de Lúcio Barbosa, poeta baiano. Segundo relatos sobre a origem da música, ele a escreveu em homenagem a um tio, Ulisses. A canção foi gravada por Zé Geraldo e também ganhou uma versão muito conhecida na voz de Zé Ramalho. A letra não é reproduzida aqui.

O que interessa a este capítulo é a cena que a música monta: um trabalhador aponta para um prédio, um shopping, uma igreja, e diz que ajudou a levantar cada um deles — e que, em todos, foi mandado embora ou barrado na entrada. É a imagem do operário da ilustração deste capítulo: ele construiu a cidade que agora passa por ele sem o ver.

Duas formas de deixar de ver alguém como gente

Em 2006, o psicólogo Nick Haslam reuniu o que se sabia sobre desumanização e propôs um modelo que organizou o campo. A ideia central: desumanizar é negar a alguém algum traço do que consideramos humano. E isso acontece de dois jeitos.

No primeiro, nega-se o que é exclusivamente humano — a civilidade, o refinamento, a razão. Quem é visto assim parece mais próximo de um animal. No segundo, nega-se a natureza humana — a emoção, a cordialidade, a individualidade. Quem é visto assim parece um objeto ou um autômato, uma peça que funciona.

É essa segunda forma que a canção retrata. O trabalhador não é odiado; é tratado como ferramenta. Útil enquanto levanta a parede, invisível depois que ela fica de pé. Haslam chama a atenção para um ponto que desfaz um mal-entendido comum: a desumanização não mora só em atrocidades. Ela aparece no dia a dia, em versões brandas, quase automáticas.

Quando o cérebro não liga o "modo pessoa"

Em 2006, Lasana Harris e Susan Fiske levaram essa pergunta para dentro do aparelho de ressonância magnética. Eles partiram de um mapa já conhecido da psicologia social, que descreve como julgamos grupos em duas réguas: o quanto parecem calorosos (bem-intencionados) e o quanto parecem competentes.

A previsão era específica: só os grupos vistos ao mesmo tempo como pouco calorosos e pouco competentes — no estudo, pessoas em situação de rua e pessoas com dependência de drogas — seriam alvo da forma mais extrema de desprezo. E foi o que os dados sugeriram. Diante de imagens dessas pessoas, uma região ligada a pensar sobre a mente dos outros, o córtex pré-frontal medial, ativou menos do que diante de outras pessoas.

Em um artigo de 2011, os mesmos autores deram nome ao fenômeno: percepção desumanizada, a falha em considerar espontaneamente que ali existe uma mente. Não é decidir que o outro não tem valor. É o cérebro não acionar, de largada, a rede que normalmente trata quem está à nossa frente como alguém que pensa e sente. O resultado é parecido com o da canção: a pessoa está ali, visível aos olhos, e ainda assim não é vista.

Dois cuidados. Esses são estudos de imagem cerebral, com amostras pequenas e grupos específicos, que descrevem médias e não o que se passa em cada indivíduo. E "ativar menos" uma região não é o mesmo que "desligar" a consideração pelo outro.

As emoções que guardamos só para os "nossos"

Há uma versão ainda mais discreta desse apagamento. Em 2000, Jacques-Philippe Leyens e colegas descreveram o que chamaram de infra-humanização: a tendência a reservar certas emoções — as mais complexas, como nostalgia, remorso, esperança, admiração — para o próprio grupo, e a atribuir ao grupo de fora apenas emoções simples, que dividimos com os animais, como medo ou raiva.

Ninguém diz "essa gente não sente saudade". O gesto é mais fino: a gente apenas não imagina que sinta. É um modo de rebaixar sem agredir, de tratar o outro como gente "pela metade". Aplicado à cena da música, é supor que o trabalhador quer o salário, mas não sonha; que tem pressa, mas não tem projeto.

Ser tratado como invisível tem efeito em quem recebe

Até aqui, falamos de quem desumaniza. E quem é desumanizado, o que sente? Em 2011, Brock Bastian e Nick Haslam estudaram os efeitos de ser tratado de forma desumanizada em situações cotidianas, e descreveram consequências tanto no pensamento quanto na emoção de quem passa por isso. Ser reduzido a função, ser olhado como se não estivesse ali, não é um nada: deixa marca em quem recebe.

Isso conversa com outro capítulo desta série. Em Like a Rolling Stone: Quando o Status Cai, o Corpo Sente, a pesquisa mostra como perder posição diante dos outros repercute no corpo. Aqui, o movimento é parecido: não ser reconhecido como alguém que importa também cobra um preço.

Por que ser ignorado dói de verdade

A forma mais estudada desse preço é o que acontece quando somos deixados de fora. Em 2003, Naomi Eisenberger, Matthew Lieberman e Kipling Williams colocaram pessoas num jogo simples de passar bola enquanto o cérebro era filmado. A certa altura, os outros "jogadores" paravam de passar a bola para o participante. Era só um jogo, com estranhos, e mesmo assim doía.

Durante a exclusão, uma região chamada córtex cingulado anterior ficou mais ativa — a mesma que participa da resposta à dor física —, e quanto mais ativa, mais sofrimento a pessoa relatava. A conclusão dos autores: ser excluído aciona circuitos aparentados aos da dor no corpo.

Em 2007, Williams organizou duas décadas de pesquisa sobre o tema. Ser ignorado, excluído ou rejeitado funciona como um sinal de ameaça, detectado rápido, que mexe com necessidades básicas: pertencer, ter autoestima, sentir que se tem algum controle e que se existe para os outros. A invisibilidade da canção não é só uma injustiça social abstrata. Para quem a vive, é algo que o cérebro registra como ameaça. É também por isso que somos, como lembra o capítulo Por Quem os Sinos Dobram, feitos em parte do reconhecimento dos outros.

O que a evidência ainda não sabe

Este é um campo sério, mas com limites que precisam ser ditos:

  • Amostras específicas. Boa parte dos estudos foi feita em países ocidentais, com grupos específicos. Não há, nos estudos lidos aqui, um resultado próprio sobre o Brasil ou sobre trabalhadores da construção.
  • Imagem cerebral descreve médias. Os achados de ressonância são de grupo, com amostras pequenas, e não leem a mente de ninguém em particular.
  • Associação não é causa. Mostrar que desumanizar e tratar mal andam juntos não prova qual vem primeiro.
  • Grupos não preveem pessoas. Tendências médias não dizem o que um indivíduo sente ou faz.
  • Não é um diagnóstico. Desumanização é um conceito da psicologia social, não um transtorno nem um rótulo para ninguém. O paralelo entre a canção e os estudos é uma interpretação, não um achado científico.

Ver quem está à vista

A pesquisa não pede que a gente carregue culpa por cada pessoa que o olho não registrou. O apagamento costuma ser automático, e ninguém repara em tudo o tempo todo. O que os estudos sugerem é mais simples: a consideração pelo outro pode não ligar sozinha, e pode ser ligada de novo.

Perguntar o nome de quem atende, olhar no rosto de quem entrega, imaginar que aquela pessoa tem um domingo, uma preocupação, um plano — são gestos pequenos que reativam o "modo pessoa" que a pressa desliga. A canção faz isso com uma denúncia. A ciência faz com um convite: antes de passar por alguém, lembrar que ali tem gente inteira.

🎧 Ressonância Universal

Ouça Cidadão, na voz de Zé Geraldo, pelo canal oficial. Enquanto ela toca, pense numa pessoa que faz um trabalho que você usa todo dia e cujo nome você nunca soube. O que você sabe da vida dela?

🎶 Músicas Relacionadas a Este Tema

📖 Próximo Capítulo da Série:
Capítulo 26: Eu Nasci Há 10 Mil Anos Atrás — Raul Seixas: a crença na reencarnação como objeto de estudo da psicologia (em breve) →

5 Pilares Sobre a Desumanização Sutil

  1. Há duas formas de desumanizar. No modelo de Haslam, negar o que é só humano aproxima o outro do animal; negar a natureza humana o aproxima do objeto. A segunda é a da canção.
  2. Nem sempre é ódio. A versão cotidiana é discreta: tratar como função, não como pessoa.
  3. O cérebro pode não ligar o "modo pessoa". Diante de grupos muito estigmatizados, uma região ligada a pensar na mente do outro ativou menos, em estudos de imagem.
  4. Infra-humanizar é guardar as emoções complexas para os "nossos". Supor que o outro sente menos é um modo fino de rebaixá-lo.
  5. Ser invisível cobra preço. Ser excluído aciona circuitos aparentados aos da dor física.

🧠 Aprofunde seu Conhecimento

🎬 Filmes Para Sentir Este Tema na Pele

  • Tempos Modernos (1936): a comédia de Charles Chaplin em que um operário vira mais uma engrenagem da linha de montagem, usado pela máquina e descartado por ela.
  • O Homem que Virou Suco (1981): o filme de João Batista de Andrade acompanha um trabalhador nordestino em São Paulo, confundido com outro e tratado como se não tivesse rosto próprio.

📝 Teste o Que Você Entendeu

  1. No modelo de Haslam (2006), qual das duas formas de desumanização aproxima a pessoa de um objeto ou autômato?
  2. Nos estudos de Harris e Fiske, diante de quais grupos a região ligada a pensar na mente do outro ativou menos?
  3. O que Leyens e colegas chamaram de infra-humanização?
  4. No estudo de Eisenberger e colegas (2003), qual região ficou mais ativa durante a exclusão social?

🛠️ Exercício Prático: O Nome de Quem Você Não Vê

Inspirado na pesquisa sobre percepção desumanizada e infra-humanização. Leva cerca de dez minutos, com papel e caneta.

  1. Liste três "invisíveis". Pense em três pessoas cujo trabalho você usa toda semana e de quem você não sabe o nome.
  2. Preencha o que você sabe. Ao lado de cada uma, escreva tudo o que sabe da vida dela além da função. Repare no tamanho do espaço em branco.
  3. Uma pergunta real. Escolha uma e, na próxima vez, faça uma pergunta genuína — o nome, como foi o dia. Sem forçar intimidade.
  4. Observe a mudança. Depois, anote se algo mudou no modo como você passou a enxergar aquela pessoa.
  5. Vire para você. Houve algum lugar em que você se sentiu tratado como função, e não como gente? O que teria mudado se alguém tivesse perguntado seu nome?

O exercício serve para reflexão, não para diagnosticar ninguém. Se ele trouxer à tona um peso que não passa ou sofrimento intenso, procure apoio de um psicólogo ou da unidade de saúde mais próxima.

📚 Referências Científicas

  • Bastian, B., & Haslam, N. (2011). Experiencing Dehumanization: Cognitive and Emotional Effects of Everyday Dehumanization. Basic and Applied Social Psychology, 33(4), 295-303. DOI: 10.1080/01973533.2011.614132
  • Eisenberger, N. I., Lieberman, M. D., & Williams, K. D. (2003). Does Rejection Hurt? An fMRI Study of Social Exclusion. Science, 302(5643), 290-292. DOI: 10.1126/science.1089134
  • Harris, L. T., & Fiske, S. T. (2006). Dehumanizing the Lowest of the Low: Neuroimaging Responses to Extreme Out-Groups. Psychological Science, 17(10), 847-853. DOI: 10.1111/j.1467-9280.2006.01793.x
  • Harris, L. T., & Fiske, S. T. (2011). Dehumanized Perception: A Psychological Means to Facilitate Atrocities, Torture, and Genocide? Zeitschrift für Psychologie, 219(3), 175-181. DOI: 10.1027/2151-2604/a000065
  • Haslam, N. (2006). Dehumanization: An Integrative Review. Personality and Social Psychology Review, 10(3), 252-264. DOI: 10.1207/s15327957pspr1003_4
  • Haslam, N., & Loughnan, S. (2014). Dehumanization and Infrahumanization. Annual Review of Psychology, 65, 399-423. DOI: 10.1146/annurev-psych-010213-115045
  • Leyens, J.-P., Paladino, P. M., Rodriguez-Torres, R., Vaes, J., Demoulin, S., Rodriguez-Perez, A., & Gaunt, R. (2000). The Emotional Side of Prejudice: The Attribution of Secondary Emotions to Ingroups and Outgroups. Personality and Social Psychology Review, 4(2), 186-197. DOI: 10.1207/S15327957PSPR0402_06
  • Williams, K. D. (2007). Ostracism. Annual Review of Psychology, 58, 425-452. DOI: 10.1146/annurev.psych.58.110405.085641

⚖️ Aviso Legal e Isenção de Responsabilidade

Este conteúdo tem finalidade exclusivamente informativa e educacional e não substitui avaliação, diagnóstico ou acompanhamento de psicólogos, psiquiatras ou outros profissionais de saúde. Se a sensação de não importar ou de ser invisível vier acompanhada de sofrimento intenso ou persistente, procure ajuda profissional. No Brasil, o CVV atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia.

Os estudos citados descrevem tendências de grupo, em amostras específicas, boa parte de países ocidentais, e vários com imagem cerebral de amostras pequenas. Os resultados não se transferem automaticamente para o Brasil nem preveem o comportamento ou a vivência de uma pessoa. Desumanização e infra-humanização são conceitos da psicologia social, não diagnósticos, e o paralelo entre a canção e os estudos é uma interpretação.

As referências à canção de Lúcio Barbosa, às suas gravações e aos filmes citados têm caráter cultural e analítico, sem reprodução de letra e sem interpretação biográfica de nenhuma pessoa real.

Escrito e editado por Bralilton Gomes, que publica sob o nome editorial NOUS. Parnamirim, Rio Grande do Norte.

Não é médico, psicólogo nem pesquisador: é curador de evidência científica. Cada referência citada é conferida antes da publicação, e os textos são produzidos com apoio de inteligência artificial sob revisão humana. Método completo.

Encontrou um erro? Avise aqui — correções têm prioridade.

Nenhum comentário: