Por NOUS · A Lei Universal
Você acorda com a sensação de ter vivido uma história inteira durante a noite. Havia lugares, pessoas, talvez um susto. Em poucos minutos, quase tudo some. Fica um pedaço de cena, uma emoção sem motivo, e a pergunta: o que foi aquilo?
Durante séculos, os sonhos pertenceram à filosofia, à religião e à arte. Nas últimas décadas, eles viraram também objeto de laboratório. A ciência já sabe algumas coisas com segurança, discute muitas outras e ainda não sabe responder à pergunta mais antiga de todas: para que sonhamos? Este artigo separa o que está estabelecido do que ainda é hipótese.
O que acontece quando você dorme
O sono não é um bloco único. Ao longo da noite, o cérebro passa por ciclos que alternam dois grandes tipos de sono. Um é o sono não REM, que vai do cochilo leve ao sono profundo. O outro é o sono REM, sigla em inglês para movimentos oculares rápidos.
O nome vem de uma observação de 1953. Eugene Aserinsky e Nathaniel Kleitman publicaram na revista Science um estudo sobre períodos regulares de movimento dos olhos durante o sono, acompanhados de outros fenômenos do corpo. Foi o ponto de partida para o estudo moderno das fases do sono.
Por muito tempo, o REM foi tratado como a fase dos sonhos. Quem era acordado durante ele costumava relatar sonhos longos e vívidos. Mas a pergunta "sonhamos só no REM?" acabou tendo outra resposta.
Sonhamos também fora do REM
Em 2017, Francesca Siclari e colegas publicaram na Nature Neuroscience um estudo com eletroencefalografia de alta densidade. É um exame que registra a atividade elétrica do cérebro com muitos sensores espalhados pela cabeça. Os voluntários eram acordados várias vezes durante a noite e diziam se tinham sonhado ou não.
O resultado mostrou relatos de sonho tanto no sono REM quanto no não REM. E, nas duas fases, os sonhos estavam associados a um mesmo padrão: uma queda da atividade de baixa frequência numa região da parte de trás do córtex. Os autores chamaram essa região de zona quente posterior.
Mais do que isso, acompanhando essa região em tempo real, a equipe conseguiu prever com alta precisão se a pessoa diria que estava sonhando ao ser acordada do sono não REM. A atividade de alta frequência nas mesmas áreas também acompanhou conteúdos específicos dos sonhos. É um achado importante, obtido em laboratório, que ainda precisa ser confirmado em outros contextos.
Uma base de dados para uma pergunta difícil
O grande problema da pesquisa sobre sonhos é o tamanho. Cada estudo consegue acordar poucas pessoas, poucas vezes. Para contornar isso, um grupo internacional de laboratórios apresentou em 2023 o DREAM, uma base que reúne registros cerebrais do sono e relatos de sonho em formato padronizado.
A primeira versão juntou 20 conjuntos de dados, 561 participantes e 2.649 despertares. Nas análises de exemplo, os pesquisadores mostraram que é possível prever, a partir de medidas do eletroencefalograma, se a pessoa vai relatar uma experiência consciente, tanto no sono REM quanto no não REM.
Um cuidado: o trabalho foi divulgado como preprint, que é uma versão apresentada antes da revisão por pares. Ele é útil pelo tamanho e pela padronização, mas as análises dele ainda são exemplos, não a palavra final sobre o assunto.
Os sonhos do REM e os do resto da noite
Sonhar nas duas fases não quer dizer sonhar do mesmo jeito. Em 2020, Joshua Martin e colegas, num grupo que incluía o neurocientista brasileiro Sidarta Ribeiro, analisaram 133 relatos de sonho de 20 participantes, publicados na revista PLOS ONE.
Os autores partiram de uma observação já conhecida: em média, os relatos colhidos depois do REM são mais longos, mais vívidos, mais estranhos, mais emocionais e mais parecidos com uma história do que os colhidos depois do sono não REM. Eles então usaram uma técnica chamada análise de grafos, que transforma o relato numa rede de palavras ligadas entre si.
Os relatos do REM mostraram redes mais conectadas do que os de uma fase leve do sono não REM. E as medidas da rede acompanharam a avaliação de quão complexo cada sonho era. É um método automático, que ajuda a comparar sonhos sem depender só da leitura de um pesquisador.
O cérebro "vê" o que sonha?
Em 2013, Tomoyasu Horikawa, Yukiyasu Kamitani e colegas publicaram na Science um estudo de decodificação. Eles usaram aprendizado de máquina, um tipo de programa que aprende padrões a partir de exemplos, para comparar a atividade do cérebro durante o sono com a atividade enquanto os voluntários, acordados, viam imagens.
Os resultados sugerem que o conteúdo visual dos sonhos é representado pelas mesmas bases do cérebro usadas na percepção acordada. Em outras palavras, o que se vê num sonho parece usar parte do mesmo equipamento que se usa para ver o mundo.
Isso não significa que já seja possível "gravar" sonhos. Falar em leitura de sonhos, hoje, vai além do que o estudo mostrou.
Por que sonhamos? Três hipóteses
Aqui a ciência muda de tom. Não há consenso sobre a função dos sonhos. Há hipóteses, cada uma com apoio e com críticas.
A primeira ficou conhecida em 1977, quando J. Allan Hobson e Robert McCarley propuseram a hipótese da ativação-síntese. O título descreve o cérebro como um gerador de estados de sonho. Teorias dessa família são citadas por Revonsuo como as que veem o sonho como um subproduto aleatório da fisiologia do REM, sem função própria.
A segunda é a hipótese da simulação de ameaças, de Antti Revonsuo, publicada em 2000. Ele argumenta que o conteúdo dos sonhos não é aleatório: é organizado, seletivo e fortemente influenciado por experiências da vigília. Para ele, a função biológica do sonho seria simular situações ameaçadoras e ensaiar formas de perceber e evitar o perigo. A proposta se apoia em relatos de sonhos comuns, de crianças, de pesadelos e de caçadores-coletores. É uma hipótese evolutiva, difícil de testar diretamente.
A terceira trata do papel emocional do sono, e merece uma seção própria.
A "terapia noturna": uma hipótese com ressalvas
Em 2009, Matthew Walker e Els van der Helm publicaram uma revisão com um título em forma de pergunta: Terapia noturna? Nela, propuseram a hipótese que chamaram de dormir para esquecer e dormir para lembrar.
A ideia é esta: durante o REM, o cérebro reativaria memórias emocionais num ambiente químico particular, com pouca ação da noradrenalina, uma substância ligada ao estado de alerta. Com isso, o conteúdo da lembrança seria preservado, e a carga emocional associada a ela diminuiria com o tempo.
A proposta é influente e plausível. Mas é uma hipótese, e os próprios autores a apresentam assim. Resultados posteriores complicam o quadro. Um trabalho de 2021, de Gabriela Werner e colegas, por exemplo, relatou indícios iniciais de que o REM pode aumentar a resposta emocional no curto prazo e reduzir lembranças intrusivas no longo prazo. A frase popular de que "o sono REM cura as feridas" vai além do que a pesquisa mostra.
Sonhar com o que se aprendeu
Outra linha de pesquisa liga os sonhos à memória. Em 2010, Erin Wamsley, Robert Stickgold e colegas publicaram na Current Biology um estudo cujo título resume o achado: sonhar com uma tarefa de aprendizado esteve associado a uma melhora na consolidação dessa memória durante o sono.
A palavra "associado" é a mais importante da frase. O estudo mostra que as duas coisas andaram juntas, não que o sonho tenha causado a melhora. Pode ser que o sonho seja um sinal de que a memória está sendo processada, e não o motor desse processo.
Sonho lúcido: saber que se está sonhando
O sonho lúcido é aquele em que a pessoa percebe, durante o sonho, que está sonhando. Em 2016, David Saunders e colegas reuniram 50 anos de pesquisa sobre o tema. A estimativa média foi de que cerca de 55% das pessoas tiveram ao menos um sonho lúcido na vida, e cerca de 23% têm sonhos lúcidos uma vez por mês ou mais.
Em 2021, Karen Konkoly e colegas, em quatro laboratórios independentes, fizeram algo que parecia impossível. Durante o sono REM confirmado por exames, pessoas em sonho lúcido perceberam perguntas feitas pelos pesquisadores e responderam com movimentos combinados dos olhos e do rosto. Foram 36 participantes, e houve 29 respostas corretas, vindas de 6 deles.
Em 2025, Çağatay Demirel e colegas juntaram dados de vários laboratórios para buscar as marcas elétricas do sonho lúcido. As diferenças em relação ao REM comum foram pequenas no nível dos sensores. Numa análise mais fina, apareceram quedas de atividade em regiões do lado direito do cérebro, como a junção temporoparietal, e aumento de conexões entre áreas. Os autores sugerem que esses padrões podem estar ligados às mudanças de percepção, memória e consciência de si que o sonho lúcido traz. Ainda é um retrato inicial.
Álcool, sono e REM
Uma das descobertas mais práticas dessa área diz respeito ao álcool. Em 2013, Irshaad Ebrahim e colegas revisaram os estudos sobre o efeito do álcool no sono de voluntários saudáveis.
Em todas as doses, o álcool fez as pessoas pegarem no sono mais rápido e deixou a primeira metade da noite mais consolidada. Em compensação, aumentou as interrupções na segunda metade. O início do primeiro período de REM ficou atrasado em todas as doses, e o total de REM da noite diminuiu na maioria dos estudos com doses moderadas e altas.
Ou seja: a bebida que parece ajudar a dormir muda a arquitetura da noite. Isso não é um conselho médico sobre consumo, mas uma informação útil para quem nota que dorme mal depois de beber.
Pesadelos: quando vale procurar ajuda
Quase todo mundo tem pesadelos de vez em quando, e isso é comum. Eles passam a merecer atenção quando se repetem com frequência, atrapalham o sono ou o dia seguinte, ou quando revivem um acontecimento traumático.
Nesses casos, existem tratamentos estudados. Um exemplo é a terapia de ensaio de imagens, testada em 2001 por Barry Krakow e colegas, num estudo publicado no JAMA com sobreviventes de violência sexual que tinham pesadelos crônicos e transtorno de estresse pós-traumático. Esse tipo de tratamento é conduzido por profissionais de saúde. Pesadelos persistentes são motivo para buscar um médico ou psicólogo, e não para tentar resolver sozinho a partir de um artigo.
Os sonhos têm significado?
Freud e Jung deram aos sonhos um lugar central na vida psíquica. Cada um, a seu modo, via neles uma forma de acesso a conteúdos que a mente acordada não mostra. Essas ideias marcaram a cultura e a psicologia, e continuam sendo estudadas como parte da história do pensamento.
A ciência do sono responde a uma pergunta um pouco diferente. Ela não afirma que cada imagem tem uma mensagem oculta. Mas também não trata os sonhos como puro ruído. Como mostrou a revisão de Revonsuo, o conteúdo dos sonhos é organizado e acompanha experiências da vida acordada.
Uma leitura equilibrada seria esta: os sonhos refletem, de algum modo, o que ocupa a pessoa, sobretudo no campo das emoções. Interpretá-los pode ser um exercício de reflexão pessoal. Tratá-los como previsão do futuro ou como diagnóstico não tem apoio na evidência. Sobre a forma como o cérebro traz lembranças à tona sem ser chamado, há mais em A Vergonha Que Só Você Ainda Lembra.
O que a evidência ainda não sabe
- A função dos sonhos continua em aberto. Ativação-síntese, simulação de ameaças e terapia noturna são hipóteses, não conclusões.
- Todo estudo depende de relatos. O sonho só é conhecido pelo que a pessoa conta ao acordar, e lembranças se perdem e se distorcem em minutos.
- Os estudos são feitos em laboratório, com pessoas dormindo cercadas de sensores, o que não é a noite de ninguém.
- Os estudos de decodificação ainda são iniciais. Nenhum deles reconstrói o sonho de alguém.
- Os estudos descrevem tendências de grupo. Eles não explicam o sonho de uma pessoa específica.
Resumo: o que a ciência sustenta
O sono alterna fases REM e não REM ao longo da noite. Sonhamos nas duas, embora os sonhos do REM costumem ser mais longos, vívidos e emocionais. Uma região da parte de trás do córtex aparece associada à presença de sonhos nas duas fases. O conteúdo visual dos sonhos parece usar parte das mesmas bases da visão acordada. A função dos sonhos segue em debate, com hipóteses sobre simulação de ameaças e processamento emocional. O sonho lúcido é comum ao menos uma vez na vida, e já permitiu comunicação em tempo real com pessoas dormindo. O álcool atrasa e reduz o sono REM. Pesadelos persistentes têm tratamento e pedem ajuda profissional.
Há algo de bonito nesse retrato honesto. Mesmo com toda a tecnologia, o sonho continua sendo uma experiência que só quem sonha pode contar. O tranco que às vezes acorda você na entrada do sono é outro desses fenômenos da fronteira entre estar acordado e dormir.
Exercício prático: o diário de sonhos
Inspirado na observação, repetida por pesquisadores como Konkoly e colegas, de que os relatos de sonho feitos depois se distorcem e se perdem. Leva poucos minutos por dia, durante uma semana.
- Deixe papel e caneta ao lado da cama. O celular serve, mas a luz da tela pode atrapalhar se você voltar a dormir.
- Ao acordar, fique parado alguns segundos. Antes de levantar, tente recuperar a última cena do sonho.
- Anote do jeito que vier. Lugares, pessoas, cores e, principalmente, a emoção dominante. Não precisa fazer sentido.
- Marque a hora em que acordou. Isso ajuda a perceber padrões ao longo da semana.
- No fim da semana, releia tudo. Procure emoções ou temas que se repetem e pergunte o que, na sua vida acordada, anda ocupando esse espaço.
O exercício serve para reflexão, não para diagnóstico. Se os sonhos anotados forem pesadelos frequentes ou trouxerem sofrimento intenso, pare e converse com um profissional de saúde.
Aprofunde seu Conhecimento
- O Tranco Que Te Acorda ao Dormir
- Quem Você É Antes de Ser o Que Pensam
- Neuroplasticidade Autodirigida: O Guia Técnico para Mudar o Cérebro
- A Neurociência da Felicidade: Como o Cérebro Produz Bem-Estar Real
- Controle Emocional: Como o Cérebro Regula as Emoções e Como Desenvolver esse Poder
- A Vergonha Que Só Você Ainda Lembra
Referências Científicas
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Os estudos citados descrevem tendências de grupo, em amostras pequenas e em laboratório, e se baseiam em relatos feitos ao acordar. As explicações sobre a função dos sonhos são hipóteses em debate. As informações sobre álcool e sono vêm de estudos com voluntários saudáveis e não constituem orientação de consumo.
As menções a Freud, Jung e à tradição de interpretação dos sonhos têm caráter histórico e cultural, e não constituem afirmação científica sobre o significado de sonhos individuais.

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