quinta-feira, 25 de junho de 2026

Esperança: O Que Nos Mantém em Pé

Mapa de trilha aberto sobre uma mesa de madeira ao entardecer, com um caminho riscado por um X e um novo traçado a lápis desviando até uma travessia do rio; ao lado, uma bússola de latão, um lápis e um abajur aceso

Por NOUS · A Lei Universal

Há dias em que tentar parece não adiantar. A mesma porta fechou tantas vezes que a pergunta deixa de ser "como passar" e vira "para que continuar". Quem está nesse lugar costuma ouvir que precisa pensar positivo. E pensar positivo, ali, soa quase como uma ofensa.

A psicologia estuda a esperança há mais de trinta anos, e o que ela mede é diferente de pensamento positivo. Não é a certeza de que vai dar certo. É algo mais prático: a sensação de que existe um caminho e de que você consegue percorrê-lo. Este artigo mostra o que se sabe sobre isso, o que dá para treinar e o que ainda não se sabe.

O que a psicologia chama de esperança

Em 1991, o psicólogo C. R. Snyder e colegas publicaram uma escala para medir a esperança como característica de cada pessoa. O título do trabalho resume a ideia: a vontade e os caminhos.

Na teoria de Snyder, a esperança tem duas partes. A primeira é a agência, a sensação de que você é capaz de ir atrás de uma meta. A segunda são os caminhos, a capacidade de enxergar rotas para chegar lá, inclusive uma rota nova quando a primeira se fecha. Em 2002, Snyder reuniu a teoria num artigo central da revista Psychological Inquiry.

Repare que nenhuma das duas partes é uma previsão sobre o futuro. As duas falam do que a pessoa acha que pode fazer. É essa diferença que separa a esperança de uma ideia vizinha, e muito mais famosa.

Esperança não é otimismo

Otimismo, na psicologia, é a expectativa geral de que as coisas vão dar certo. Esperança, no sentido de Snyder, é a sensação de ter caminhos e disposição para percorrê-los. As duas andam juntas com frequência, mas não são a mesma coisa.

A pergunta foi tão discutida que virou título de um estudo de 2004, de Fred Bryant e Jamie Cvengros: esperança e otimismo são dois lados da mesma moeda, ou duas moedas diferentes?

Um trabalho de 2019 ajuda a ver por que a diferença importa. Emma Pleeging, Martijn Burger e Job van Exel revisaram a literatura e analisaram dados de uma amostra representativa da população dos Estados Unidos. As expectativas positivas, a parte mais passiva, se associaram pouco ao bem-estar. As formas de esperança ligadas ao pensamento e à emoção foram as que mais se associaram a ele.

A leitura dos autores: uma disposição mais ativa, de quem se vê agindo, pesa mais no bem-estar do que simplesmente esperar que as coisas melhorem. É um estudo de um momento só, que mostra associação e não causa. Mas ele desloca a pergunta de "vai dar certo?" para "o que eu consigo fazer?". E isso leva a uma descoberta antiga, que os próprios autores tiveram de corrigir.

O desamparo aprendido, revisto pelos próprios autores

Nos anos 1960, Steven Maier e Martin Seligman descreveram o desamparo aprendido. Animais expostos a choques que não podiam controlar depois falhavam em escapar de novos choques. A explicação da época: eles tinham aprendido que nada do que faziam importava.

Em 2016, cinquenta anos depois, os dois publicaram uma revisão na Psychological Review dizendo que a teoria original estava invertida. Pelo que a pesquisa com animais mostrou, a passividade diante de um sofrimento prolongado não é aprendida. É a resposta padrão. O que se aprende é o contrário: detectar que se tem controle. E essa detecção, segundo a revisão, envolve o córtex pré-frontal medial, que passa a frear a resposta de passividade.

Isso muda o sentido da esperança. Se a passividade é o ponto de partida, a experiência de ter controle é o que se constrói. Os próprios autores tratam as implicações para a depressão como especulação, e os dados vêm de animais. Mas a revisão sugere algo que a teoria de Snyder já dizia de outro jeito: a sensação de agência se aprende com experiências em que agir faz diferença.

Dá para aumentar a esperança?

Em 2011, Robert Weis e Elena Speridakos publicaram uma meta-análise de intervenções feitas para aumentar a esperança. Uma meta-análise junta muitos estudos sobre a mesma pergunta. Foram 27 estudos, com 2.154 participantes.

O resultado foi modesto. As intervenções aumentaram a esperança com um efeito pequeno (d = 0,22) e a satisfação com a vida com um efeito menor ainda (d = 0,16). Sobre o sofrimento psicológico, não houve efeito geral (d = 0,04).

Dois detalhes chamam atenção. Intervenções feitas em laboratório tiveram efeito maior do que as feitas em contexto clínico. E as de uma sessão só tiveram efeito maior do que as de várias sessões. Os autores concluem que a evidência é modesta e que, em contexto clínico, a psicoterapia tradicional deve vir antes.

O dado sobre sessão única é curioso. Um estudo de 2012 testou exatamente isso.

Noventa minutos

David Feldman e Diane Dreher testaram uma única sessão de 90 minutos com universitários. A intervenção trabalhava o pensamento orientado a metas, no sentido de Snyder. Participaram 96 estudantes, divididos entre a intervenção, uma sessão de relaxamento muscular e nenhuma intervenção.

Quem passou pela sessão de esperança teve aumento nas medidas de esperança, de propósito de vida e de vocação, em comparação com os outros grupos. Um mês depois, relatou mais progresso numa meta escolhida por eles mesmos.

Houve um resultado contraintuitivo, relatado pelos próprios autores. A esperança previu o progresso na meta, mas não explicou por que o grupo da intervenção progrediu mais. Ou seja, a sessão funcionou, mas não exatamente pelo caminho que a teoria esperava. É um estudo pequeno, com universitários e acompanhamento de um mês. Serve como pista, não como prova.

O que a evidência ainda não sabe

A maior parte da pesquisa sobre esperança mede o que a pessoa relata sobre si mesma, por questionário. Os estudos que ligam esperança a bem-estar são, em boa parte, de observação: mostram associação, não causa.

As intervenções têm efeitos pequenos e, na meta-análise de 2011, não reduziram o sofrimento psicológico de forma geral. Treinar a esperança não substitui tratamento para quem está em sofrimento intenso.

Também não há base para falar em "circuitos da esperança" como coisa estabelecida. A revisão de Maier e Seligman descreve circuitos do controle em animais. Transformar isso num mapa cerebral da esperança humana seria ir além do que os estudos mostram.

E, como em todo estudo de grupo, nada disso prevê o caso de uma pessoa específica.

Resumo: o que a ciência sustenta

Na psicologia, esperança é a combinação de agência (sentir-se capaz de ir atrás de uma meta) e caminhos (enxergar rotas, inclusive alternativas). Ela é diferente de otimismo: num estudo com amostra representativa, as expectativas positivas se associaram pouco ao bem-estar, e a esperança mais ativa se associou mais. A revisão do desamparo aprendido sugere que a passividade diante do sofrimento prolongado é o ponto de partida, e que a experiência de controle é aprendida. Intervenções para aumentar a esperança existem, com efeitos pequenos e sem efeito geral sobre o sofrimento.

Um passo prático: o mapa de caminhos

Inspirado na teoria de Snyder e em intervenções breves como a de Feldman e Dreher. Leva cerca de quinze minutos.

  1. Escolha uma meta pequena e concreta. Algo que dependa de você e caiba nas próximas semanas.
  2. Desenhe três caminhos. Anote três rotas possíveis até ela, por mais imperfeitas que pareçam. O objetivo não é achar a melhor, é ver que existe mais de uma.
  3. Marque o primeiro obstáculo de cada caminho. E, ao lado, o que você faria se ele aparecer.
  4. Registre uma evidência de agência. Escreva uma situação recente em que algo que você fez mudou um resultado, mesmo pequeno.
  5. Dê o primeiro passo hoje. O menor passo possível no caminho que parecer mais viável.

O exercício serve para reflexão, não para avaliação. Se a sensação de que nada adianta durar semanas, vier com tristeza persistente ou com perda de interesse por quase tudo, procure um profissional de saúde mental. Se houver pensamentos de não querer viver, procure ajuda agora: CVV 188, gratuito e 24 horas, ou, em emergência, SAMU 192.

Quem está travado entre insistir e desistir de uma meta pode ler também Custo Afundado: Por Que Você Não Desiste. E quem se frustra porque a vida não segue o roteiro encontra em Expectativa: Por Que a Vida Frustra Você o outro lado desta conversa.


Aprofunde seu Conhecimento

Referências Científicas

  • Bryant, F. B., & Cvengros, J. A. (2004). Distinguishing hope and optimism: Two sides of a coin, or two separate coins? Journal of Social and Clinical Psychology, 23(2), 273-302. DOI: 10.1521/jscp.23.2.273.31018
  • Feldman, D. B., & Dreher, D. E. (2012). Can hope be changed in 90 minutes? Testing the efficacy of a single-session goal-pursuit intervention for college students. Journal of Happiness Studies, 13(4), 745-759. DOI: 10.1007/s10902-011-9292-4
  • Maier, S. F., & Seligman, M. E. P. (2016). Learned helplessness at fifty: Insights from neuroscience. Psychological Review, 123(4), 349-367. DOI: 10.1037/rev0000033
  • Pleeging, E., Burger, M., & van Exel, J. (2019). The relations between hope and subjective well-being: A literature overview and empirical analysis. Applied Research in Quality of Life, 16(3), 1019-1041. DOI: 10.1007/s11482-019-09802-4
  • Snyder, C. R. (2002). Hope theory: Rainbows in the mind. Psychological Inquiry, 13(4), 249-275. DOI: 10.1207/S15327965PLI1304_01
  • Snyder, C. R., Harris, C., Anderson, J. R., Holleran, S. A., Irving, L. M., Sigmon, S. T., Yoshinobu, L., Gibb, J., Langelle, C., & Harney, P. (1991). The will and the ways: Development and validation of an individual-differences measure of hope. Journal of Personality and Social Psychology, 60(4), 570-585. DOI: 10.1037/0022-3514.60.4.570
  • Weis, R., & Speridakos, E. C. (2011). A meta-analysis of hope enhancement strategies in clinical and community settings. Psychology of Well-Being: Theory, Research and Practice, 1, 5. DOI: 10.1186/2211-1522-1-5

Aviso Legal e Isenção de Responsabilidade

Este conteúdo tem finalidade exclusivamente informativa e educacional e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento por psicólogos, psiquiatras ou outros profissionais de saúde. Esperança, otimismo e desamparo aprendido são apresentados como objetos de pesquisa, não como tratamento. Se a falta de esperança for intensa ou persistente, procure ajuda profissional. Se houver pensamentos de morte ou de tirar a própria vida, procure ajuda imediatamente: no Brasil, o CVV atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia; em emergência, ligue 192 (SAMU).

Os estudos citados descrevem tendências de grupo, em amostras específicas, e em sua maioria medem a esperança por questionário. A revisão sobre desamparo aprendido baseia-se em pesquisa com animais, e suas implicações para pessoas são tratadas pelos próprios autores como hipótese. As intervenções para aumentar a esperança tiveram efeitos pequenos e não reduziram o sofrimento psicológico de forma geral.

Escrito e editado por Bralilton Gomes, que publica sob o nome editorial NOUS. Parnamirim, Rio Grande do Norte.

Não é médico, psicólogo nem pesquisador: é curador de evidência científica. Cada referência citada é conferida antes da publicação, e os textos são produzidos com apoio de inteligência artificial sob revisão humana. Método completo.

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