terça-feira, 14 de abril de 2026

Resiliência: o que a Neurociência Revela sobre a Capacidade de Superar Adversidades

Vitral iluminado: no centro, um juazeiro de tronco cinza retorcido e copa de um verde intenso, a única coisa verde na paisagem. Ao redor, arbustos secos sem folhas e terra rachada em tons de ocre, ferrugem e areia, até um horizonte plano. No céu claro, um sol branco e forte, com linhas de chumbo que se abrem a partir dele, e sob a árvore uma mancha de sombra cinza

Por NOUS · A Lei Universal

Depois de uma perda, de uma demissão ou de uma notícia difícil, alguém sempre diz: "você precisa ser forte". A frase tenta ajudar, mas costuma pesar. Parece que existe um jeito certo de atravessar a dor, e que quem sofre está fazendo errado.

A palavra que a psicologia usa para isso é resiliência. Na internet, ela virou uma espécie de superpoder, que se ativa com rotinas extremas e frases de guerreiro. A pesquisa conta outra história, mais humana e mais útil. A pergunta deste artigo é: o que a ciência chama de resiliência, quão comum ela é, o que parece ajudar e o que é exagero?

O que a pesquisa chama de resiliência

A palavra vem da física: é a capacidade de um material voltar à forma depois de ser deformado. Na psicologia, o sentido é parecido, mas não igual.

Em 2004, o psicólogo George Bonanno, do Teachers College da Universidade Columbia, publicou na revista American Psychologist um artigo que se tornou referência. Para ele, resiliência é a capacidade de adultos que passam por um evento isolado e potencialmente devastador, como a morte de alguém próximo ou uma situação de violência, de manter níveis relativamente estáveis e saudáveis de funcionamento psicológico e físico.

Bonanno fez uma distinção importante. Recuperação é quando a pessoa sofre de forma intensa por meses e, aos poucos, volta ao que era antes. Resiliência é outra coisa: é manter o equilíbrio, com abalos menores e passageiros. As duas são caminhos legítimos. Uma não é melhor que a outra.

Repare no que a definição não diz. Ela não fala em não sentir dor, nem em sair mais forte, nem em vencer. Fala em continuar funcionando. E isso, segundo a pesquisa, é mais comum do que parece.

Uma "mágica comum"

Em 2001, a psicóloga Ann Masten, da Universidade de Minnesota, revisou décadas de pesquisa sobre crianças que cresceram em condições adversas. O título do artigo virou expressão: Ordinary magic, "mágica comum".

A conclusão dela inverteu uma expectativa antiga. A resiliência, escreveu Masten, é comum, e costuma nascer do funcionamento normal dos sistemas de adaptação que todo ser humano tem. As maiores ameaças ao desenvolvimento são justamente as que prejudicam esses sistemas de proteção.

Isso muda o lugar da resiliência. Ela deixa de ser um dom raro de poucos e passa a ser algo que a maioria das pessoas tem, desde que o básico não seja destruído. Se a resiliência é comum, a pergunta seguinte é: comum quanto?

Quão comum ela é? Um debate de método

No artigo de 2004, Bonanno reuniu estudos sobre o luto. Neles, as pessoas que mostraram níveis relativamente baixos de depressão ou de sofrimento chegaram perto de metade da amostra, ou passaram dela. Logo depois do 11 de setembro de 2001, mais de 40% dos moradores de Manhattan não relataram nenhum sintoma de estresse pós-traumático.

Mais tarde, o grupo de Bonanno passou a acompanhar pessoas ao longo do tempo e a separar trajetórias: quem se mantém estável, quem se recupera, quem segue em sofrimento. Os números de uma revisão de 2018 estão no artigo sobre Trauma: Resiliência, Sofrimento e Quando Buscar Ajuda.

Em 2016, Frank Infurna e Suniya Luthar questionaram essa conclusão. Eles reanalisaram dados sobre viuvez, divórcio e desemprego. Com as mesmas escolhas estatísticas dos estudos anteriores, a trajetória resiliente foi a mais comum. Quando mudaram duas premissas do modelo, ela passou a ser a menos comum.

Para Infurna e Luthar, a lição é que falar em "taxa de resiliência" depende muito do método. E há um alerta prático: seria perigoso usar um único jeito de analisar dados para dizer que pessoas que passaram por algo grave não precisam de ajuda.

Isaac Galatzer-Levy e Bonanno responderam no mesmo ano. Segundo eles, a reanálise usou outros dados e parâmetros, e os modelos escolhidos captavam pior as diferenças entre as pessoas. O debate não fechou. O que fica é uma conclusão mais modesta: muitas pessoas atravessam perdas sem desmoronar, e o número exato depende de como se mede.

Não existe um único caminho

Se a resiliência é comum, o que as pessoas resilientes têm em comum? A resposta de Bonanno surpreende: nada de único. Segundo ele, não existe um só meio de manter o equilíbrio depois de eventos muito difíceis. Existem vários caminhos.

Um deles é o que a psicologia chama de robustez, ou hardiness. Ela tem três partes: o compromisso de encontrar um propósito na vida, a crença de que se pode influenciar o que acontece ao redor e a crença de que se pode aprender tanto com o que é bom quanto com o que é ruim. Pessoas com essa característica, diz a revisão, também usam melhor o enfrentamento ativo e o apoio de outras pessoas.

Outro achado é mais delicado. Pessoas enlutadas que riam e sorriam de verdade ao falar de uma perda recente tiveram melhor adaptação ao longo de vários anos. Rir não desrespeita quem se foi. Pode ser parte de como a vida continua.

Bonanno também mostra que nem todo caminho é admirável. Alguns traços ajudam a atravessar a perda e cobram um preço em outras áreas. A autovalorização exagerada, por exemplo, vem associada a autoestima alta, mas também a custos. Resiliência não é sinônimo de virtude.

Por que nem todos reagem do mesmo jeito

Em 2012, Steven Southwick e Dennis Charney resumiram o tema na revista Science. As respostas ao estresse e ao trauma variam muito, escreveram. Algumas pessoas desenvolvem transtornos, como estresse pós-traumático e depressão. Outras têm sintomas leves ou moderados, que passam logo. E outras não relatam nenhum sintoma novo.

Essa variação, segundo os autores, depende de muitos fatores de risco e de proteção: genéticos, do desenvolvimento, cognitivos, psicológicos e neurobiológicos. Nenhum deles decide sozinho.

Isso tem uma consequência importante. Se alguém sofre mais depois de uma perda, não é porque "escolheu" ser fraco. Muitos desses fatores não estão sob controle de ninguém.

O que o estudo do NPY mostrou, e o que não mostrou

Uma molécula costuma aparecer em textos sobre resiliência: o neuropeptídeo Y, ou NPY. O estudo mais citado é de 2000, de Charles Morgan e colegas, publicado na Biological Psychiatry.

Eles mediram o NPY no sangue de 70 soldados durante um treinamento militar de sobrevivência, que incluía interrogatórios. Eram 38 soldados das Forças Especiais e 32 de outras unidades. O NPY subiu durante o estresse e foi mais alto nos soldados das Forças Especiais. Nesse grupo, quem teve mais NPY relatou menos dissociação, a sensação de se desligar da própria experiência.

Os autores concluíram que os resultados apoiam a ideia de que o NPY pode estar envolvido na maior resistência ao estresse. Pode estar. É um estudo de associação, com um grupo muito específico, numa situação extrema.

O estudo não testou nenhuma prática do dia a dia. Ele não mostra que frio, jejum ou exercício extremo aumentem o NPY, nem que isso protegeria alguém de um trauma. Essas promessas circulam, mas não vêm desta pesquisa.

Crescer depois da dor: o que se mede

Muitas pessoas dizem que saíram de uma crise com algo novo: mais valor pela vida, relações mais próximas, uma força que não conheciam. A psicologia chama isso de crescimento pós-traumático.

Em 1996, Richard Tedeschi e Lawrence Calhoun criaram um questionário para medir esse crescimento, com 21 itens. Ele avalia cinco áreas: novas possibilidades, relação com os outros, força pessoal, mudança espiritual e valorização da vida.

No estudo original, mulheres relataram mais benefícios que homens. Quem tinha passado por eventos traumáticos relatou mais mudança positiva do que quem não tinha. E o crescimento relatado teve relação modesta com otimismo e extroversão.

Repare na palavra "relatado". O questionário pergunta à pessoa o quanto ela acha que mudou. Isso abriu uma pergunta difícil.

Crescimento relatado não é crescimento medido

Em 2009, Patricia Frazier e colegas testaram essa pergunta com universitários. Eles mediram, num primeiro momento, as áreas que o crescimento costuma envolver. Dois meses depois, mediram de novo. Entre os dois momentos, 122 estudantes passaram por um evento traumático.

Assim, foi possível comparar duas coisas: o crescimento que a pessoa dizia ter tido e a mudança real entre antes e depois. O resultado foi incômodo. As respostas ao questionário de crescimento quase não tiveram relação com a mudança real.

Mais do que isso: o crescimento percebido veio junto com mais sofrimento, enquanto o crescimento real veio junto com menos. Para os autores, perceber e mudar parecem ser processos diferentes. Dizer "saí mais forte" pode ser, em parte, uma forma de lidar com a dor.

Isso não quer dizer que ninguém cresce depois de uma crise. Quer dizer que o crescimento não é obrigação, e que ninguém precisa provar que saiu melhor para ter atravessado bem.

Ajuda para todos? O cuidado vale dos dois lados

Se a maioria atravessa perdas sem desmoronar, seria o caso de oferecer apoio psicológico a todo mundo, logo depois de qualquer tragédia? Bonanno alerta que não necessariamente. Segundo a revisão dele, aplicar a todos o chamado debriefing psicológico se mostrou ineficaz e pode atrapalhar a recuperação natural.

Infurna e Luthar alertam para o risco oposto: concluir, a partir de uma estatística, que quem passou por algo grave não precisa de ajuda. Os dois alertas cabem juntos. Nem todo sofrimento precisa de tratamento. E nenhum sofrimento persistente deve ser ignorado em nome da resiliência.

Na prática, a pergunta não é "sou resiliente ou não?". É "isso está passando, ou está ficando?".

Resiliência não é obrigação

A pesquisa sobre resiliência nasceu para mostrar que as pessoas são mais capazes do que se pensava. Usada do jeito errado, ela vira uma cobrança: se a maioria supera, quem não supera estaria falhando.

Essa leitura é errada. A recuperação lenta também é um caminho previsto pela pesquisa. Sofrer por meses depois de uma perda grande não é sinal de defeito. E pedir ajuda não é o contrário de ser resiliente. Muitas vezes, é parte do processo.

Ter um caminho possível e a sensação de que dá para dar o próximo passo é o tema de Esperança: O Que Nos Mantém em Pé. E a frase "quem tem um porquê suporta quase qualquer como", que costuma ser atribuída a Viktor Frankl, é de Nietzsche, como mostra Vazio Existencial: Por Que Você Se Sente Vazio e Como Sair.

O que a evidência ainda não sabe

  • A taxa de resiliência depende do método. Dependendo das escolhas estatísticas, a mesma base de dados mostra a resiliência como a trajetória mais comum ou como a menos comum.
  • O crescimento é medido sobretudo por relato. E o que a pessoa relata nem sempre coincide com a mudança medida antes e depois.
  • A biologia ainda é pouco conhecida. O estudo do NPY é de associação, com soldados numa situação extrema. Ele não autoriza nenhum protocolo para o dia a dia.
  • Os estudos descrevem grupos. Eles não dizem como uma pessoa específica vai reagir a uma perda.

Nada disso diminui a capacidade humana de atravessar o difícil. Só impede que um estudo diga mais do que mostrou.

Quando procurar ajuda

Sofrer depois de uma perda é esperado. Mas alguns sinais pedem avaliação de um profissional de saúde mental: tristeza ou ansiedade que não diminuem depois de semanas, lembranças que invadem o dia, pesadelos frequentes, dificuldade de dormir, de trabalhar ou de cuidar de si, afastamento de quase todas as pessoas, uso de álcool ou de outras substâncias para aguentar.

No Brasil, a Unidade Básica de Saúde e o Centro de Atenção Psicossocial, o CAPS, atendem pelo SUS. Se houver pensamentos de morte ou de tirar a própria vida, procure ajuda agora: CVV 188, gratuito e 24 horas, ou, em emergência, SAMU 192.

Exercício prático: o mapa dos seus recursos

Inspirado na ideia de Masten de que a resiliência nasce de sistemas comuns de proteção, e na de Bonanno de que existem vários caminhos. Leva cerca de quinze minutos, com papel e caneta.

  • Lembre de uma fase difícil que já passou. Escreva em uma frase o que aconteceu.
  • Anote o que ajudou. Pessoas, rotinas, lugares, atividades. Não o que "deveria" ter ajudado, e sim o que de fato ajudou.
  • Anote o que não ajudou. Cobranças, isolamento, conselhos que pesaram.
  • Olhe para hoje. Quais desses recursos ainda estão ao seu alcance? Marque um que você pode usar nesta semana.
  • Escolha uma pessoa. Escreva o nome de alguém com quem você poderia falar se as coisas apertarem.

O exercício serve para reflexão, não para diagnóstico. Se ao fazê-lo vierem lembranças muito dolorosas, pare, respire e, se elas continuarem, converse com um profissional.


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Referências Científicas

  • Bonanno, G. A. (2004). Loss, Trauma, and Human Resilience: Have We Underestimated the Human Capacity to Thrive After Extremely Aversive Events? American Psychologist, 59(1), 20-28. DOI: 10.1037/0003-066X.59.1.20
  • Frazier, P., Tennen, H., Gavian, M., Park, C., Tomich, P., & Tashiro, T. (2009). Does Self-Reported Posttraumatic Growth Reflect Genuine Positive Change? Psychological Science, 20(7), 912-919. DOI: 10.1111/j.1467-9280.2009.02381.x
  • Galatzer-Levy, I. R., & Bonanno, G. A. (2016). It's Not So Easy to Make Resilience Go Away. Perspectives on Psychological Science, 11(2), 195-198. DOI: 10.1177/1745691615621277
  • Infurna, F. J., & Luthar, S. S. (2016). Resilience to Major Life Stressors Is Not as Common as Thought. Perspectives on Psychological Science, 11(2), 175-194. DOI: 10.1177/1745691615621271
  • Masten, A. S. (2001). Ordinary magic: Resilience processes in development. American Psychologist, 56(3), 227-238. DOI: 10.1037/0003-066X.56.3.227
  • Morgan, C. A., Wang, S., Southwick, S. M., Rasmusson, A., Hazlett, G., Hauger, R. L., & Charney, D. S. (2000). Plasma neuropeptide-Y concentrations in humans exposed to military survival training. Biological Psychiatry, 47(10), 902-909. DOI: 10.1016/S0006-3223(99)00239-5
  • Southwick, S. M., & Charney, D. S. (2012). The Science of Resilience: Implications for the Prevention and Treatment of Depression. Science, 338(6103), 79-82. DOI: 10.1126/science.1222942
  • Tedeschi, R. G., & Calhoun, L. G. (1996). The posttraumatic growth inventory: Measuring the positive legacy of trauma. Journal of Traumatic Stress, 9(3), 455-471. DOI: 10.1002/jts.2490090305

Aviso Legal e Isenção de Responsabilidade

Este conteúdo tem finalidade exclusivamente informativa e educacional e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento por médicos, psicólogos ou outros profissionais de saúde. Nada aqui recomenda práticas físicas extremas. Quem está em tratamento não deve iniciar, ajustar ou interromper medicação sem orientação de quem prescreveu. Se o sofrimento for intenso ou persistente, procure ajuda profissional. No Brasil, o CVV atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia.

Os estudos citados descrevem tendências de grupo, em amostras específicas, e parte deles mede associações, sem provar causa. Os números sobre resiliência variam conforme o método de análise.

Escrito e editado por Bralilton Gomes, que publica sob o nome editorial NOUS. Parnamirim, Rio Grande do Norte.

Não é médico, psicólogo nem pesquisador: é curador de evidência científica. Cada referência citada é conferida antes da publicação, e os textos são produzidos com apoio de inteligência artificial sob revisão humana. Método completo.

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