quarta-feira, 24 de junho de 2026

Solidão: Estar Só ou Se Sentir Só

Xilogravura de cordel em preto e branco: uma coruja-buraqueira tranquila, de olhos semicerrados, pousada sozinha no alto de um mourão de cerca no sertão seco, ao lado de um mandacaru, olhando o sol que nasce no horizonte, enquanto ao longe um rebanho de cabras caminha junto pela margem de um rio seco

Por NOUS · A Lei Universal

Tem gente que passa uma tarde inteira sozinha e volta inteira. Tem gente que passa uma hora sozinha e volta pior. Do lado de fora, as duas cenas são iguais: uma pessoa, um cômodo, nenhuma companhia. Por dentro, são experiências opostas.

A psicologia passou décadas estudando só um lado dessa história, o da solidão que dói. Há pouco tempo começou a medir o outro: o tempo a sós que descansa. A pergunta deste artigo é: quando estar só faz bem, quando faz mal, e o que separa uma coisa da outra?

Estar só e se sentir só são coisas diferentes

Na pesquisa, solidão é a sensação de que as relações que você tem ficam aquém das que você precisa. Ela pode aparecer numa casa cheia. Já o simples fato de estar sem ninguém por perto tem outro nome na literatura em inglês, solitude, que em português costuma ser chamado de solitude ou de tempo a sós.

O lado da solidão, com o que acontece no cérebro quando a falta de conexão dura demais, está contado em O Que o Cérebro Sente Quando Está Só. Este artigo trata do outro lado.

Em 2003, os psicólogos Christopher Long e James Averill publicaram um ensaio teórico que chamava atenção para essa lacuna. Filósofos, artistas e líderes espirituais sempre elogiaram o tempo a sós, escreveram eles, mas a psicologia tinha olhado quase só para as experiências negativas de estar sozinho. Para os autores, a solitude, ao contrário da solidão, muitas vezes é um estado positivo, algo que as pessoas procuram em vez de evitar.

O ensaio examinou os benefícios que costumam ser atribuídos ao tempo a sós: liberdade, criatividade, intimidade e espiritualidade. E também apontou os riscos de quem passa a preferir demais ficar sozinho. É um trabalho de reflexão, não um experimento. Ele organizou as perguntas que outros pesquisadores começariam a testar depois.

Por que ficar a sós com a própria cabeça incomoda

O primeiro dado incômodo veio de um laboratório. Em 2014, Timothy Wilson e colegas, das universidades da Virgínia e de Harvard, publicaram na revista Science uma série de estudos com uma tarefa simples: ficar sozinho numa sala, sem celular, sem livro e sem nada para fazer, apenas pensando, por um período de 6 a 15 minutos.

A maioria não gostou. Nos seis primeiros estudos, 57,5% dos participantes disseram que tiveram dificuldade de se concentrar, e 89% disseram que a mente vagou.

O estudo mais citado foi além. Antes da tarefa, os participantes receberam um choque elétrico leve e disseram que pagariam para não levar outro. Depois, ficaram 15 minutos sozinhos com um botão que dava esse mesmo choque. Doze dos 18 homens (67%) e 6 das 24 mulheres (25%) apertaram o botão pelo menos uma vez.

O resultado diz menos sobre o tempo a sós em geral do que parece. A situação era imposta, numa sala vazia, com a ordem de não fazer nada. Ninguém escolheu estar ali. E, como os próximos estudos mostram, a escolha muda quase tudo.

O que o tempo a sós faz com as emoções

Em 2018, Thuy-vy Nguyen, Richard Ryan e Edward Deci, da Universidade de Rochester, publicaram quatro estudos sobre o que acontece com as emoções quando a pessoa fica sozinha por um tempo.

O efeito principal foi uma espécie de desaceleração. Sozinhas, as pessoas sentiram menos emoções de alta ativação, tanto as boas, como entusiasmo e empolgação, quanto as ruins, como raiva e ansiedade. Esse efeito apareceu quando estavam sozinhas, mas não quando estavam com outra pessoa. E não dependeu de estarem fazendo alguma coisa, como ler, ou de não estarem fazendo nada.

Dois detalhes mudam a leitura. Quando os participantes escolheram ativamente no que pensar, ou se ocuparam de pensamentos positivos, o entusiasmo não caiu. E no quarto estudo, o tempo a sós trouxe relaxamento e menos estresse quando as pessoas escolheram ficar sozinhas.

Ou seja, o tempo a sós funciona como um botão de baixar o volume das emoções. Isso pode ser descanso ou pode ser tédio, dependendo do que a pessoa precisava naquele momento e de ter escolhido estar ali.

O que decide é a escolha

Virginia Thomas e Margarita Azmitia, da Universidade da Califórnia em Santa Cruz, levaram essa ideia para um questionário. Em 2019, publicaram uma escala que mede não quanto tempo a pessoa passa sozinha, mas por que ela fica sozinha. Participaram 803 jovens adultos e 176 adolescentes dos Estados Unidos.

As respostas se dividiram em dois grupos de motivos. Quem buscava o tempo a sós por razões próprias, porque gosta, porque descansa, porque pensa melhor, teve mais bem-estar, sobretudo entre os jovens adultos. Quem ficava sozinho por motivos de fora, como evitar os outros ou sentir que não era bem-vindo, teve mais solidão, mais ansiedade social e mais sintomas depressivos.

O mesmo comportamento, ficar sozinho, aparece ligado a coisas opostas conforme o motivo. Por isso a pergunta "você passa muito tempo sozinho?" diz pouco. A pergunta útil é "por que você fica sozinho?".

Em 2021, Netta Weinstein, Thuy-vy Nguyen e Heather Hansen ouviram 2.035 pessoas de três faixas de idade: adolescentes de 13 a 16 anos, adultos de 35 a 55 e pessoas com 65 anos ou mais. Elas escreveram, com as próprias palavras, o que o tempo a sós lhes dava. Um tema apareceu e pesou em todas as idades: a autonomia, a sensação de estar consigo mesmo, sem pressão de ninguém. Esse tema ficou mais importante com a idade, e foram as pessoas mais velhas que relataram mais paz nos momentos a sós.

Não existe uma medida certa de tempo a sós

Se o tempo a sós faz bem, quanto seria o ideal? Em 2023, Weinstein, Nguyen e colegas tentaram responder isso com um estudo de diário na revista Scientific Reports. Durante 21 dias, 178 pessoas reconstruíram o próprio dia, hora a hora, registrando quanto tempo passaram sozinhas. O plano do estudo foi registrado e aprovado antes da coleta dos dados, o que reduz o risco de ajustar a análise ao resultado.

A primeira resposta foi que não existe uma medida ideal que sirva para todo mundo.

Os dados mostraram os dois lados ao mesmo tempo. Nos dias em que passavam mais horas sozinhas, as pessoas se sentiam mais solitárias e menos satisfeitas. Mas esse efeito diminuía ou sumia quando o tempo a sós tinha sido escolhido. E ele não se acumulava: quem passou mais tempo sozinho no conjunto das três semanas não ficou, no geral, mais solitário.

Os ganhos, sim, se acumularam. Nos dias com mais tempo a sós, as pessoas sentiram menos estresse e mais autonomia, a sensação de agir por vontade própria, sem pressão. E quem passou mais tempo sozinho ao longo do estudo terminou menos estressado e mais satisfeito nessa necessidade de autonomia.

A conclusão dos autores é equilibrada: o tempo a sós pode piorar alguns aspectos do bem-estar e melhorar outros. A dose certa é pessoal.

E a solidão no meio das pessoas?

Existe ainda um terceiro caso, que não é estar só nem estar acompanhado de verdade: sentir-se sozinho no meio dos outros.

Em 2024, as pesquisadoras Simone Shamay-Tsoory e Alisa Kanterman, da Universidade de Haifa, em Israel, propuseram na revista Social Cognitive and Affective Neuroscience um modelo para pensar essa experiência. Elas se inspiram no comportamento de manada dos animais, em que o grupo se move junto a partir de regras simples de aproximação, afastamento e alinhamento entre vizinhos.

A hipótese delas é que, nas pessoas, a dificuldade de se alinhar com os outros pode estar no centro do surgimento da solidão e da sua manutenção, quando a vontade de se aproximar e a de se afastar ficam distorcidas. É um modelo teórico, ainda a ser testado. Mas ele ajuda a nomear algo que muita gente sente: estar perto não é o mesmo que estar em sintonia.

O que acontece quando alguém fala e não se sente ouvido, mesmo cercado de gente, está em The Sound of Silence: A Solidão no Meio da Conversa.

O que a evidência ainda não sabe

  • A maior parte dos estudos é recente e de poucos países. Estados Unidos e Reino Unido dominam as amostras. Não se sabe se o mesmo vale, do mesmo jeito, para outras culturas.
  • Muitos dados são de autorrelato. As pessoas contam como se sentiram, e a memória e o humor do momento interferem.
  • Os estudos de laboratório duram minutos. Quinze minutos numa sala vazia não são uma tarde de domingo escolhida.
  • Associação não é causa. Quem escolhe ficar sozinho e se sente bem pode já estar bem antes. Os estudos de diário ajudam, mas não resolvem tudo.
  • O modelo do alinhamento é uma proposta. Ainda não foi testado como um todo.
  • Tudo descreve tendências de grupo. Nenhum desses estudos diz qual é a sua dose de tempo a sós.

Quando o tempo a sós deixa de ser escolha

O estudo de Thomas e Azmitia aponta o sinal mais útil: o motivo. Ficar sozinho para descansar é uma coisa. Ficar sozinho para fugir de pessoas, por medo de julgamento ou por vergonha, é outra, e foi esse segundo padrão que apareceu ligado a mais ansiedade social e mais sintomas depressivos.

Se você percebe que se isola cada vez mais, que o tempo a sós já não descansa, ou que a solidão vem com tristeza que não passa, desânimo ou a sensação de que a vida não vale a pena, procure um profissional de saúde mental. Isso não é fraqueza nem fase a ser esperada. No Brasil, o CVV atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia.

Exercício prático: tempo a sós de propósito

Inspirado nos estudos de Nguyen, Ryan e Deci e de Thomas e Azmitia. Leva cerca de vinte minutos.

  1. Escolha o momento. Reserve quinze minutos em que ninguém precisa de você. O ponto é que a decisão seja sua, e não uma sobra do dia.
  2. Escolha o que fazer. Caminhar, olhar a rua, desenhar, apenas sentar. Decida antes e deixe o celular em outro cômodo.
  3. Observe o volume. Ao final, note se as emoções baixaram de intensidade. Isso é o efeito descrito nos estudos, e pode ser descanso ou tédio.
  4. Pergunte o motivo. Nos dias em que você ficou sozinho sem planejar, foi para descansar ou para evitar alguém? Escreva a resposta em uma linha.
  5. Ajuste a dose. Se o tempo a sós descansou, repita na semana. Se ele trouxe peso, troque a próxima sessão por uma conversa com alguém de confiança.

O exercício serve para reflexão, não para diagnóstico.


Aprofunde seu Conhecimento

Referências Científicas

  • Long, C. R., & Averill, J. R. (2003). Solitude: An Exploration of Benefits of Being Alone. Journal for the Theory of Social Behaviour, 33(1), 21-44. DOI: 10.1111/1468-5914.00204
  • Nguyen, T. T., Ryan, R. M., & Deci, E. L. (2018). Solitude as an Approach to Affective Self-Regulation. Personality and Social Psychology Bulletin, 44(1), 92-106. DOI: 10.1177/0146167217733073
  • Shamay-Tsoory, S. G., & Kanterman, A. (2024). Away from the herd: loneliness as a dysfunction of social alignment. Social Cognitive and Affective Neuroscience, 19(1). DOI: 10.1093/scan/nsae005
  • Thomas, V., & Azmitia, M. (2019). Motivation matters: Development and validation of the Motivation for Solitude Scale - Short Form (MSS-SF). Journal of Adolescence, 70, 33-42. DOI: 10.1016/j.adolescence.2018.11.004
  • Weinstein, N., Nguyen, T., & Hansen, H. (2021). What Time Alone Offers: Narratives of Solitude From Adolescence to Older Adulthood. Frontiers in Psychology, 12, 714518. DOI: 10.3389/fpsyg.2021.714518
  • Weinstein, N., Vuorre, M., Adams, M., & Nguyen, T. (2023). Balance between solitude and socializing: everyday solitude time both benefits and harms well-being. Scientific Reports, 13. DOI: 10.1038/s41598-023-44507-7
  • Wilson, T. D., Reinhard, D. A., Westgate, E. C., Gilbert, D. T., Ellerbeck, N., Hahn, C., Brown, C. L., & Shaked, A. (2014). Just think: The challenges of the disengaged mind. Science, 345(6192), 75-77. DOI: 10.1126/science.1250830

Aviso Legal e Isenção de Responsabilidade

Este conteúdo tem finalidade exclusivamente informativa e educacional e não substitui avaliação, diagnóstico ou acompanhamento de psicólogos, psiquiatras ou outros profissionais de saúde. Se a solidão ou o isolamento vêm com sofrimento intenso ou persistente, procure ajuda profissional. No Brasil, o CVV atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia.

Os estudos citados descrevem tendências de grupo, em amostras específicas, parte delas em laboratório e com autorrelato. O modelo do alinhamento social é uma proposta teórica ainda não testada como um todo.

Escrito e editado por Bralilton Gomes, que publica sob o nome editorial NOUS. Parnamirim, Rio Grande do Norte.

Não é médico, psicólogo nem pesquisador: é curador de evidência científica. Cada referência citada é conferida antes da publicação, e os textos são produzidos com apoio de inteligência artificial sob revisão humana. Método completo.

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