terça-feira, 7 de julho de 2026

Silêncio: O Que a Mente Ouve Quando Cala

Pintura em tinta sumi-e: rua estreita de uma aldeia antiga coberta de neve ao entardecer azulado, casas baixas de madeira com telhados nevados e lanternas de papel acesas, flocos grandes caindo devagar, montanhas claras ao fundo e uma única figura pequena de chapéu de palha caminhando de costas, deixando uma linha de pegadas no silêncio

Por NOUS · A Lei Universal

Quando foi a última vez que você ficou alguns minutos sem som nenhum? Sem música, sem televisão ao fundo, sem o celular avisando alguma coisa. Para muita gente, a resposta é "não lembro". E, quando o silêncio aparece, ele nem sempre é confortável.

Circula muito a ideia de que o silêncio "cria neurônios" e "regenera o cérebro". A pesquisa tem coisas interessantes a dizer sobre o silêncio, mas não essa. A pergunta deste artigo é: o que o ruído faz com a gente, o que a ausência dele faz, e o que ainda não se sabe?

O ruído não é só um incômodo

Em 2014, Mathias Basner e colegas publicaram na revista The Lancet uma revisão sobre os efeitos do ruído na saúde. Eles separam dois tipos de efeito.

O primeiro é sobre a audição. A perda auditiva causada por ruído continua comum no trabalho e, cada vez mais, vem do ruído do lazer, como o som alto em fones de ouvido.

O segundo tipo vai além do ouvido. Segundo a revisão, estudos de observação e experimentos mostram que a exposição ao ruído causa incômodo, atrapalha o sono e deixa as pessoas mais sonolentas durante o dia. Nos hospitais, afeta a recuperação dos pacientes e o desempenho das equipes. Ela também aumenta a ocorrência de hipertensão e de doença cardiovascular, e prejudica o desempenho cognitivo de crianças em idade escolar.

Os autores concluem pedindo estratégias de prevenção e de redução do ruído como medida de saúde pública. O ruído não é uma questão de gosto. É um fator ambiental que pesa no corpo, como a poluição do ar.

Uma das formas pelas quais o barulho constante cobra seu preço é o sono. O que acontece no cérebro durante o sono, e por que dormir mal pesa tanto, está em Sono e Sonhos: O Que a Neurociência Revela Sobre o Cérebro Que Sonha.

O que as revisões da OMS encontraram

Em 2018, a Organização Mundial da Saúde atualizou suas diretrizes sobre ruído ambiental para a Europa. Para isso, encomendou revisões sistemáticas, que avaliaram não só o que os estudos mostram, mas também a qualidade dessa evidência. Três delas ajudam a separar o que é sólido do que ainda é incerto.

Sono. Mathias Basner e Sarah McGuire reuniram 74 estudos feitos fora do laboratório. Em medições do sono durante a noite, cada aumento de 10 decibéis no pico de ruído dentro do quarto aumentou em cerca de 35% a chance de despertar, para ruído de avião, de trânsito e de trem. A conclusão foi que o ruído de transporte afeta o sono medido de forma objetiva e o sono que as pessoas relatam. A qualidade da evidência foi considerada moderada.

Coração. Elise van Kempen e colegas analisaram estudos sobre ruído e saúde cardiovascular. A evidência mais completa foi para ruído de trânsito e doença isquêmica do coração: em 7 estudos de acompanhamento, cada 10 decibéis a mais se associaram a um risco 8% maior. Os autores consideraram essa evidência de alta qualidade. Para hipertensão, a maioria dos estudos tinha alto risco de viés.

Saúde mental. Charlotte Clark e Katarina Paunovic encontraram 29 estudos, 90% deles feitos num único momento. A maior parte da evidência sobre ruído, bem-estar e saúde mental foi classificada como de qualidade muito baixa. Elas ressaltam que isso não prova que não haja efeito, mas que ele ainda não foi estudado com rigor.

Ou seja, o efeito do ruído no sono e no coração tem base razoável. O efeito sobre a saúde mental é plausível, mas ainda pouco medido.

Quando o barulho para

O dado mais próximo de um "efeito do silêncio" em pessoas veio de uma mudança de aeroporto. Munique fechou seu aeroporto antigo e abriu um novo em outra região. Staffan Hygge, Gary Evans e Monika Bullinger aproveitaram a troca para acompanhar 326 crianças, com idade média de 10 anos, antes e depois da mudança.

Perto do aeroporto novo, as crianças que passaram a conviver com o ruído dos aviões pioraram na memória de longo prazo e na leitura. Perto do aeroporto antigo, as crianças que deixaram de ouvir os aviões melhoraram na memória de longo prazo, na leitura e na memória de curto prazo. Os resultados saíram em 2002, na revista Psychological Science.

Não é um estudo sobre silêncio absoluto. É sobre tirar um ruído forte e constante da vida de crianças. E ele sugere que parte do prejuízo pode ser revertida quando o ruído vai embora.

O que uma pausa faz com o corpo

Um dos estudos mais citados sobre silêncio nem era sobre silêncio. Em 2006, Bernardi, Porta e Sleight publicaram na revista Heart uma pesquisa sobre o efeito da música no coração, na respiração e na circulação do cérebro.

Participaram 24 pessoas: 12 músicos e 12 não músicos da mesma idade. Elas ouviram seis estilos de música em ordem sorteada e, em algum momento, também sorteado, uma pausa de dois minutos sem som.

Músicas mais rápidas e com ritmo mais simples aumentaram a respiração, a pressão arterial e a frequência cardíaca. Músicas lentas tiveram efeito relaxante. E a pausa foi o momento em que esse relaxamento mais apareceu: a frequência cardíaca, a pressão e a ventilação caíram, ficando até abaixo dos valores medidos no início, antes de qualquer música.

É um estudo pequeno, de laboratório, e mediu minutos. Mas mostra algo concreto: o corpo responde ao som, e responde também à ausência dele.

O estudo dos camundongos e os "neurônios do silêncio"

A frase "o silêncio cria novos neurônios" vem de um estudo publicado em 2015 na revista Brain Structure and Function por Imke Kirste, Gerd Kempermann e colegas. Vale contar o que ele fez de verdade.

Os pesquisadores expuseram camundongos, duas horas por dia, a cinco condições sonoras: o ruído normal do biotério, ruído branco, sons de filhotes da espécie, uma peça de piano de Mozart e silêncio. Depois, mediram a formação de células novas no hipocampo, região ligada à memória.

Num primeiro momento, quase todos os estímulos aumentaram a multiplicação de células precursoras, inclusive o silêncio. A exceção foi o ruído branco. Uma semana depois, só o silêncio continuava associado a mais células novas, e os animais expostos a ele tinham mais neurônios novos do que o grupo de comparação.

O detalhe que quase nunca é contado é a interpretação dos próprios autores. A pesquisa partia da hipótese de que estímulos que deixam o animal em alerta preparam o cérebro para novas demandas. Os autores descrevem o silêncio como uma ausência não natural de som para o camundongo. Ou seja, o silêncio funcionou como um estímulo incomum, e não como um "descanso que regenera".

E é um único estudo, com camundongos, num ambiente de laboratório. Ele não mostra que duas horas de silêncio por dia criam neurônios em pessoas. Ninguém mediu isso.

Por que o silêncio às vezes incomoda

Se o silêncio pode acalmar, por que tanta gente foge dele? Uma parte da resposta é que, sem som e sem distração, a atenção se volta para dentro, e nem sempre o que está lá dentro é agradável.

Um experimento famoso deixou pessoas sozinhas numa sala, sem nada para fazer, e muitas preferiram dar a si mesmas um choque elétrico leve a ficar apenas com os próprios pensamentos. O estudo, com os números e com o que muda quando a pessoa escolhe estar ali, está em Solidão: Estar Só ou Se Sentir Só.

A lição prática é que o silêncio imposto e o silêncio escolhido não são a mesma experiência. Começar por poucos minutos, num momento escolhido, costuma ser mais fácil do que tentar uma hora de uma vez.

Silêncio por fora, barulho por dentro

Desligar o som não desliga a cabeça. Muita gente descobre, ao ficar em silêncio, que o barulho que mais incomoda é o dos próprios pensamentos: as listas, as preocupações, as conversas que se repetem.

Isso não quer dizer que o silêncio falhou. Quer dizer que ele mostrou o que estava encoberto. Para algumas pessoas, isso traz clareza. Para outras, traz desconforto, e as duas reações são comuns.

O ruído também tem um lado no corpo. O sistema do estresse, que sobe e desce com o que nos ameaça e com o que nos tira o controle, está explicado em Cortisol: o Que Acontece no Seu Cérebro Quando Você Vive Sob Estresse Crônico.

O que a evidência ainda não sabe

  • Os efeitos do silêncio em pessoas foram pouco medidos. A maior parte da pesquisa é sobre o ruído, não sobre a ausência dele. O estudo do aeroporto de Munique é uma das exceções.
  • A evidência sobre ruído e saúde mental é fraca. A revisão da OMS classificou a maior parte como de qualidade muito baixa.
  • O estudo dos neurônios foi feito com camundongos. E os próprios autores tratam o silêncio como um estímulo incomum, não como descanso.
  • O estudo da pausa é pequeno. 24 pessoas, em laboratório, por poucos minutos.
  • Os efeitos do ruído na saúde vêm em boa parte de estudos de observação. Eles mostram associação, e os experimentos ajudam a sustentar parte dela.
  • Tudo descreve tendências de grupo. Quanto silêncio faz bem para você, nenhum desses estudos diz.

Quando procurar ajuda

Se, no silêncio, você percebe um zumbido constante nos ouvidos, ou nota que tem dificuldade para entender conversas, procure um médico otorrinolaringologista: pode ser um sinal da audição que merece avaliação. Se o silêncio traz pensamentos que não param, ansiedade intensa ou tristeza que não passa, vale conversar com um profissional de saúde mental. No Brasil, o CVV atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia.

Exercício prático: o mapa do som do seu dia

Inspirado nas revisões sobre ruído e sono e no estudo da pausa de Bernardi. Leva alguns minutos ao longo de um dia.

  1. Anote os sons do dia. Trânsito, televisão ligada sem ninguém ver, fone de ouvido, notificações. Marque quais você escolheu e quais apenas aconteceram.
  2. Escolha um som para tirar. Um só, entre os que você controla: a televisão de fundo, o volume do fone, o som das notificações.
  3. Faça uma pausa de dois minutos sem som. Num momento escolhido, sentado, sem celular. Não tente pensar em nada específico.
  4. Observe o corpo. A respiração, os ombros, o ritmo. Anote em uma linha o que mudou, se mudou.
  5. Proteja o sono. Se houver ruído à noite que você possa reduzir, comece por ele.

O exercício serve para reflexão, não para diagnóstico.


Aprofunde seu Conhecimento

Referências Científicas

  • Basner, M., Babisch, W., Davis, A., Brink, M., Clark, C., Janssen, S., & Stansfeld, S. (2014). Auditory and non-auditory effects of noise on health. The Lancet, 383(9925), 1325-1332. DOI: 10.1016/S0140-6736(13)61613-X
  • Basner, M., & McGuire, S. (2018). WHO Environmental Noise Guidelines for the European Region: A Systematic Review on Environmental Noise and Effects on Sleep. International Journal of Environmental Research and Public Health, 15(3), 519. DOI: 10.3390/ijerph15030519
  • Bernardi, L., Porta, C., & Sleight, P. (2006). Cardiovascular, cerebrovascular, and respiratory changes induced by different types of music in musicians and non-musicians: the importance of silence. Heart, 92(4), 445-452. DOI: 10.1136/hrt.2005.064600
  • Clark, C., & Paunovic, K. (2018). WHO Environmental Noise Guidelines for the European Region: A Systematic Review on Environmental Noise and Quality of Life, Wellbeing and Mental Health. International Journal of Environmental Research and Public Health, 15(11), 2400. DOI: 10.3390/ijerph15112400
  • Hygge, S., Evans, G. W., & Bullinger, M. (2002). A Prospective Study of Some Effects of Aircraft Noise on Cognitive Performance in Schoolchildren. Psychological Science, 13(5), 469-474. DOI: 10.1111/1467-9280.00483
  • Kirste, I., Nicola, Z., Kronenberg, G., Walker, T. L., Liu, R. C., & Kempermann, G. (2015). Is silence golden? Effects of auditory stimuli and their absence on adult hippocampal neurogenesis. Brain Structure and Function, 220(2), 1221-1228. DOI: 10.1007/s00429-013-0679-3
  • Van Kempen, E., Casas, M., Pershagen, G., & Foraster, M. (2018). WHO Environmental Noise Guidelines for the European Region: A Systematic Review on Environmental Noise and Cardiovascular and Metabolic Effects: A Summary. International Journal of Environmental Research and Public Health, 15(2), 379. DOI: 10.3390/ijerph15020379

Aviso Legal e Isenção de Responsabilidade

Este conteúdo tem finalidade exclusivamente informativa e educacional e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento por médicos, psicólogos ou outros profissionais de saúde. Zumbido persistente ou dificuldade para ouvir merecem avaliação de um otorrinolaringologista. Se o sofrimento for intenso ou persistente, procure ajuda profissional. No Brasil, o CVV atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia.

Os estudos citados descrevem tendências de grupo, em amostras específicas; o estudo sobre neurônios novos foi feito com camundongos e não se transfere diretamente para pessoas.

Escrito e editado por Bralilton Gomes, que publica sob o nome editorial NOUS. Parnamirim, Rio Grande do Norte.

Não é médico, psicólogo nem pesquisador: é curador de evidência científica. Cada referência citada é conferida antes da publicação, e os textos são produzidos com apoio de inteligência artificial sob revisão humana. Método completo.

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