Por NOUS · A Lei Universal
Por que uma lembrança difícil continua viva anos depois, enquanto tantas outras se apagam? Quem carrega uma memória assim costuma ouvir que "é só esquecer". A pesquisa sobre memória mostra por que não é tão simples, e também por que a ideia de "apagar" um trauma é mais promessa do que ciência.
Este artigo trata da memória: como ela se guarda, o que acontece quando é lembrada e o que a pesquisa com animais e com pessoas mostrou, e não mostrou, sobre mudar o peso de uma lembrança de medo. O que acontece com a pessoa depois de um evento traumático, e onde buscar ajuda, está em Trauma: Resiliência, Sofrimento e Quando Buscar Ajuda.
A memória não é um arquivo fixo
Durante muito tempo, a memória foi imaginada como um arquivo: uma vez guardada, ficaria igual para sempre. A pesquisa das últimas décadas mudou esse retrato. Uma lembrança pode ser retomada, alterada e guardada de novo.
Isso não quer dizer que a memória seja frágil a ponto de mudar por qualquer coisa. Quer dizer que ela é um processo, e não um objeto parado. É nesse processo que a pesquisa sobre medo concentrou atenção.
Reconsolidação: quando lembrar reabre a memória
Em 2000, Karim Nader, Glenn Schafe e Joseph LeDoux publicaram na Nature um estudo cujo título resume o achado: memórias de medo, ao serem evocadas, precisam de síntese de proteínas na amígdala para se reconsolidar. A amígdala é uma região do cérebro ligada à detecção de ameaças.
Em palavras simples: quando uma memória de medo é lembrada, ela parece entrar num estado em que precisa ser "guardada de novo". Esse processo recebeu o nome de reconsolidação. A ideia abriu uma pergunta enorme: se a memória é guardada de novo, seria possível mudar o que é guardado?
A esperança em humanos
Em 2009, Daniela Schiller e colegas, também na Nature, publicaram um estudo com título igualmente direto: prevenir o retorno do medo em humanos usando mecanismos de atualização durante a reconsolidação. A proposta era usar o momento em que a memória é reativada para atualizá-la.
O resultado gerou muito entusiasmo. Se funcionasse de forma confiável, seria uma forma de mudar o peso emocional de uma lembrança sem apagá-la.
O que não se replicou
É aqui que a ciência cumpre o seu papel de desconfiar das próprias descobertas. Em 2020, Anastasia Chalkia e colegas fizeram uma replicação registrada antes da coleta dos dados, um formato que reduz o risco de resultados ajustados depois. O título do trabalho é a conclusão: não houve atenuação persistente das memórias de medo em humanos com esse procedimento.
Isso não encerra a pesquisa sobre reconsolidação, mas muda o que se pode dizer com segurança. Hoje não é correto afirmar que existe uma técnica comprovada para "desarmar" uma memória traumática no nível molecular, muito menos uma técnica para fazer em casa.
Extinção: aprender por cima, sem apagar
Existe outro processo mais bem estabelecido: a extinção do medo. Em vez de mudar a memória original, a pessoa aprende uma nova associação, a de que aquele sinal já não traz perigo. A memória antiga continua lá, mas passa a competir com a nova.
Mohammed Milad e Gregory Quirk revisaram, em 2012, dez anos de pesquisa sobre os circuitos cerebrais da extinção do medo em animais e em humanos. Eles destacam a coordenação entre pesquisadores que trabalham com roedores e com pessoas, e tratam a extinção como um modelo para a pesquisa translacional, aquela que tenta levar o laboratório para a prática.
Nada disso é um procedimento para fazer sozinho. Sem acompanhamento profissional, expor-se de propósito a uma lembrança traumática pode aumentar o sofrimento em vez de reduzi-lo.
O hipocampo: causa ou vulnerabilidade?
É comum ler que o trauma "atrofia" o hipocampo, uma região ligada à memória e ao contexto das lembranças. A história é mais complicada. Em 2002, Mark Gilbertson e colegas publicaram um estudo cujo título aponta outra direção: um hipocampo menor prevê vulnerabilidade a desenvolver sofrimento patológico depois de um trauma.
Ou seja, pelo menos parte da diferença pode existir antes do evento, como fator de risco, e não apenas como consequência. Isso desaconselha frases simples do tipo "o trauma encolheu seu cérebro".
Trauma e gerações
Outra ideia que circula muito é a de que o trauma "passa no DNA" para filhos e netos. Em 2016, Rachel Yehuda e colegas publicaram um estudo sobre efeitos da exposição ao Holocausto, entre gerações, na metilação de um gene chamado FKBP5. Metilação é uma marca química que pode alterar o funcionamento de um gene sem mudar a sequência do DNA.
É uma área de pesquisa ativa e debatida. Um estudo sobre marcas químicas num gene não autoriza afirmar que a ansiedade de alguém "é herança dos ancestrais", nem que práticas de estilo de vida "desligam genes de estresse". Essas frases vão muito além do que foi medido.
O que a evidência ainda não sabe
A pesquisa sobre reconsolidação em humanos tem resultados que não se repetiram de forma consistente. Grande parte do conhecimento de base vem de estudos com animais e de tarefas de laboratório com estímulos simples, muito distantes de uma memória traumática real. Os estudos sobre cérebro e trauma mostram associações e diferenças médias entre grupos.
Por isso, nenhuma técnica descrita aqui é recomendação de uso. Os estudos descrevem tendências de grupo, não o que vai acontecer com você.
Resumo: o que a ciência sustenta
A memória é um processo: lembrar pode reabrir uma lembrança, que depois é guardada de novo. Em estudos com memórias de medo, essa reconsolidação dependeu de processos na amígdala. Houve esperança de usar esse momento para reduzir o medo em humanos, mas uma replicação registrada não encontrou efeito persistente. A extinção, aprender que o sinal já não é perigoso, é um processo mais estudado e é usada, com acompanhamento, em terapias. Um hipocampo menor pode ser fator de vulnerabilidade, e não só consequência. E a transmissão do trauma entre gerações é uma área de pesquisa, não uma certeza.
Um passo prático, com segurança
Se uma lembrança difícil ainda dispara reações fortes, o passo mais seguro é buscar avaliação com um psicólogo ou psiquiatra. No Brasil, a Unidade Básica de Saúde e o Centro de Atenção Psicossocial, o CAPS, atendem pelo SUS, e muitas universidades têm clínicas-escola.
Evite técnicas que mandam trazer a memória traumática à mente de propósito, sozinho, para "reprogramá-la". Esse trabalho é feito por terapeutas treinados. Se houver pensamentos de morte ou de tirar a própria vida, procure ajuda agora: CVV 188, gratuito e 24 horas, ou, em emergência, SAMU 192.
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Referências Científicas
- Chalkia, A., Schroyens, N., Leng, L., Vanhasbroeck, N., Zenses, A.-K., Van Oudenhove, L., & Beckers, T. (2020). No persistent attenuation of fear memories in humans: A registered replication of the reactivation-extinction effect. Cortex, 129, 496-509. DOI: 10.1016/j.cortex.2020.04.017
- Gilbertson, M. W., Shenton, M. E., Ciszewski, A., Kasai, K., Lasko, N. B., Orr, S. P., & Pitman, R. K. (2002). Smaller hippocampal volume predicts pathologic vulnerability to psychological trauma. Nature Neuroscience, 5(11), 1242-1247. DOI: 10.1038/nn958
- Milad, M. R., & Quirk, G. J. (2012). Fear extinction as a model for translational neuroscience: Ten years of progress. Annual Review of Psychology, 63, 129-151. DOI: 10.1146/annurev.psych.121208.131631
- Nader, K., Schafe, G. E., & LeDoux, J. E. (2000). Fear memories require protein synthesis in the amygdala for reconsolidation after retrieval. Nature, 406(6797), 722-726. DOI: 10.1038/35021052
- Schiller, D., Monfils, M.-H., Raio, C. M., Johnson, D. C., LeDoux, J. E., & Phelps, E. A. (2009). Preventing the return of fear in humans using reconsolidation update mechanisms. Nature, 463(7277), 49-53. DOI: 10.1038/nature08637
- Yehuda, R., Daskalakis, N. P., Bierer, L. M., Bader, H. N., Klengel, T., Holsboer, F., & Binder, E. B. (2016). Holocaust exposure induced intergenerational effects on FKBP5 methylation. Biological Psychiatry, 80(5), 372-380. DOI: 10.1016/j.biopsych.2015.08.005
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Este conteúdo tem finalidade exclusivamente informativa e educacional e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento por psicólogos, psiquiatras ou outros profissionais de saúde. Nenhuma técnica descrita aqui é recomendação de uso. Se houver pensamentos de morte ou de tirar a própria vida, procure ajuda imediatamente: no Brasil, o CVV atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia; em emergência, ligue 192 (SAMU).
Os estudos citados descrevem tendências de grupo. Boa parte da pesquisa de base sobre memória de medo vem de estudos com animais e de tarefas de laboratório. Os resultados sobre reconsolidação em humanos não se repetiram de forma consistente.

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