sexta-feira, 8 de maio de 2026

Neuroplasticidade e Traumas: Por Que a Memória Não Se Apaga

Duas mãos tiram uma ficha em branco de uma gaveta de fichário antigo de madeira, cheia de fichas amareladas, sob uma luz quente de luminária em fundo escuro

Por NOUS · A Lei Universal

Por que uma lembrança difícil continua viva anos depois, enquanto tantas outras se apagam? Quem carrega uma memória assim costuma ouvir que "é só esquecer". A pesquisa sobre memória mostra por que não é tão simples, e também por que a ideia de "apagar" um trauma é mais promessa do que ciência.

Este artigo trata da memória: como ela se guarda, o que acontece quando é lembrada e o que a pesquisa com animais e com pessoas mostrou, e não mostrou, sobre mudar o peso de uma lembrança de medo. O que acontece com a pessoa depois de um evento traumático, e onde buscar ajuda, está em Trauma: Resiliência, Sofrimento e Quando Buscar Ajuda.

A memória não é um arquivo fixo

Durante muito tempo, a memória foi imaginada como um arquivo: uma vez guardada, ficaria igual para sempre. A pesquisa das últimas décadas mudou esse retrato. Uma lembrança pode ser retomada, alterada e guardada de novo.

Isso não quer dizer que a memória seja frágil a ponto de mudar por qualquer coisa. Quer dizer que ela é um processo, e não um objeto parado. É nesse processo que a pesquisa sobre medo concentrou atenção.

Reconsolidação: quando lembrar reabre a memória

Em 2000, Karim Nader, Glenn Schafe e Joseph LeDoux publicaram na Nature um estudo cujo título resume o achado: memórias de medo, ao serem evocadas, precisam de síntese de proteínas na amígdala para se reconsolidar. A amígdala é uma região do cérebro ligada à detecção de ameaças.

Em palavras simples: quando uma memória de medo é lembrada, ela parece entrar num estado em que precisa ser "guardada de novo". Esse processo recebeu o nome de reconsolidação. A ideia abriu uma pergunta enorme: se a memória é guardada de novo, seria possível mudar o que é guardado?

A esperança em humanos

Em 2009, Daniela Schiller e colegas, também na Nature, publicaram um estudo com título igualmente direto: prevenir o retorno do medo em humanos usando mecanismos de atualização durante a reconsolidação. A proposta era usar o momento em que a memória é reativada para atualizá-la.

O resultado gerou muito entusiasmo. Se funcionasse de forma confiável, seria uma forma de mudar o peso emocional de uma lembrança sem apagá-la.

O que não se replicou

É aqui que a ciência cumpre o seu papel de desconfiar das próprias descobertas. Em 2020, Anastasia Chalkia e colegas fizeram uma replicação registrada antes da coleta dos dados, um formato que reduz o risco de resultados ajustados depois. O título do trabalho é a conclusão: não houve atenuação persistente das memórias de medo em humanos com esse procedimento.

Isso não encerra a pesquisa sobre reconsolidação, mas muda o que se pode dizer com segurança. Hoje não é correto afirmar que existe uma técnica comprovada para "desarmar" uma memória traumática no nível molecular, muito menos uma técnica para fazer em casa.

Extinção: aprender por cima, sem apagar

Existe outro processo mais bem estabelecido: a extinção do medo. Em vez de mudar a memória original, a pessoa aprende uma nova associação, a de que aquele sinal já não traz perigo. A memória antiga continua lá, mas passa a competir com a nova.

Mohammed Milad e Gregory Quirk revisaram, em 2012, dez anos de pesquisa sobre os circuitos cerebrais da extinção do medo em animais e em humanos. Eles destacam a coordenação entre pesquisadores que trabalham com roedores e com pessoas, e tratam a extinção como um modelo para a pesquisa translacional, aquela que tenta levar o laboratório para a prática.

Nada disso é um procedimento para fazer sozinho. Sem acompanhamento profissional, expor-se de propósito a uma lembrança traumática pode aumentar o sofrimento em vez de reduzi-lo.

O hipocampo: causa ou vulnerabilidade?

É comum ler que o trauma "atrofia" o hipocampo, uma região ligada à memória e ao contexto das lembranças. A história é mais complicada. Em 2002, Mark Gilbertson e colegas publicaram um estudo cujo título aponta outra direção: um hipocampo menor prevê vulnerabilidade a desenvolver sofrimento patológico depois de um trauma.

Ou seja, pelo menos parte da diferença pode existir antes do evento, como fator de risco, e não apenas como consequência. Isso desaconselha frases simples do tipo "o trauma encolheu seu cérebro".

Trauma e gerações

Outra ideia que circula muito é a de que o trauma "passa no DNA" para filhos e netos. Em 2016, Rachel Yehuda e colegas publicaram um estudo sobre efeitos da exposição ao Holocausto, entre gerações, na metilação de um gene chamado FKBP5. Metilação é uma marca química que pode alterar o funcionamento de um gene sem mudar a sequência do DNA.

É uma área de pesquisa ativa e debatida. Um estudo sobre marcas químicas num gene não autoriza afirmar que a ansiedade de alguém "é herança dos ancestrais", nem que práticas de estilo de vida "desligam genes de estresse". Essas frases vão muito além do que foi medido.

O que a evidência ainda não sabe

A pesquisa sobre reconsolidação em humanos tem resultados que não se repetiram de forma consistente. Grande parte do conhecimento de base vem de estudos com animais e de tarefas de laboratório com estímulos simples, muito distantes de uma memória traumática real. Os estudos sobre cérebro e trauma mostram associações e diferenças médias entre grupos.

Por isso, nenhuma técnica descrita aqui é recomendação de uso. Os estudos descrevem tendências de grupo, não o que vai acontecer com você.

Resumo: o que a ciência sustenta

A memória é um processo: lembrar pode reabrir uma lembrança, que depois é guardada de novo. Em estudos com memórias de medo, essa reconsolidação dependeu de processos na amígdala. Houve esperança de usar esse momento para reduzir o medo em humanos, mas uma replicação registrada não encontrou efeito persistente. A extinção, aprender que o sinal já não é perigoso, é um processo mais estudado e é usada, com acompanhamento, em terapias. Um hipocampo menor pode ser fator de vulnerabilidade, e não só consequência. E a transmissão do trauma entre gerações é uma área de pesquisa, não uma certeza.

Um passo prático, com segurança

Se uma lembrança difícil ainda dispara reações fortes, o passo mais seguro é buscar avaliação com um psicólogo ou psiquiatra. No Brasil, a Unidade Básica de Saúde e o Centro de Atenção Psicossocial, o CAPS, atendem pelo SUS, e muitas universidades têm clínicas-escola.

Evite técnicas que mandam trazer a memória traumática à mente de propósito, sozinho, para "reprogramá-la". Esse trabalho é feito por terapeutas treinados. Se houver pensamentos de morte ou de tirar a própria vida, procure ajuda agora: CVV 188, gratuito e 24 horas, ou, em emergência, SAMU 192.


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Referências Científicas

  • Chalkia, A., Schroyens, N., Leng, L., Vanhasbroeck, N., Zenses, A.-K., Van Oudenhove, L., & Beckers, T. (2020). No persistent attenuation of fear memories in humans: A registered replication of the reactivation-extinction effect. Cortex, 129, 496-509. DOI: 10.1016/j.cortex.2020.04.017
  • Gilbertson, M. W., Shenton, M. E., Ciszewski, A., Kasai, K., Lasko, N. B., Orr, S. P., & Pitman, R. K. (2002). Smaller hippocampal volume predicts pathologic vulnerability to psychological trauma. Nature Neuroscience, 5(11), 1242-1247. DOI: 10.1038/nn958
  • Milad, M. R., & Quirk, G. J. (2012). Fear extinction as a model for translational neuroscience: Ten years of progress. Annual Review of Psychology, 63, 129-151. DOI: 10.1146/annurev.psych.121208.131631
  • Nader, K., Schafe, G. E., & LeDoux, J. E. (2000). Fear memories require protein synthesis in the amygdala for reconsolidation after retrieval. Nature, 406(6797), 722-726. DOI: 10.1038/35021052
  • Schiller, D., Monfils, M.-H., Raio, C. M., Johnson, D. C., LeDoux, J. E., & Phelps, E. A. (2009). Preventing the return of fear in humans using reconsolidation update mechanisms. Nature, 463(7277), 49-53. DOI: 10.1038/nature08637
  • Yehuda, R., Daskalakis, N. P., Bierer, L. M., Bader, H. N., Klengel, T., Holsboer, F., & Binder, E. B. (2016). Holocaust exposure induced intergenerational effects on FKBP5 methylation. Biological Psychiatry, 80(5), 372-380. DOI: 10.1016/j.biopsych.2015.08.005

Aviso Legal e Isenção de Responsabilidade

Este conteúdo tem finalidade exclusivamente informativa e educacional e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento por psicólogos, psiquiatras ou outros profissionais de saúde. Nenhuma técnica descrita aqui é recomendação de uso. Se houver pensamentos de morte ou de tirar a própria vida, procure ajuda imediatamente: no Brasil, o CVV atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia; em emergência, ligue 192 (SAMU).

Os estudos citados descrevem tendências de grupo. Boa parte da pesquisa de base sobre memória de medo vem de estudos com animais e de tarefas de laboratório. Os resultados sobre reconsolidação em humanos não se repetiram de forma consistente.

Escrito e editado por Bralilton Gomes, que publica sob o nome editorial NOUS. Parnamirim, Rio Grande do Norte.

Não é médico, psicólogo nem pesquisador: é curador de evidência científica. Cada referência citada é conferida antes da publicação, e os textos são produzidos com apoio de inteligência artificial sob revisão humana. Método completo.

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