quarta-feira, 17 de junho de 2026

Arrependimento: O Peso do Que Não Foi

Plataforma de estação ferroviária vazia ao anoitecer, com um banco de madeira, uma mala de lona ao lado e postes de luz acesos; os trilhos seguem até o horizonte, onde se veem as luzes vermelhas de um trem ao longe, entre morros e coqueiros sob o céu azul

Por NOUS · A Lei Universal

"E se eu tivesse feito diferente?" A pergunta volta sem aviso: no trânsito, antes de dormir, ao ver uma foto antiga. O caminho que não foi escolhido aparece com uma nitidez estranha, quase mais real do que o caminho que de fato foi vivido.

O arrependimento é uma das emoções mais comuns da vida adulta, e uma das mais estudadas pela psicologia. A pesquisa mostra de onde ele vem, do que as pessoas mais se arrependem, por que alguns arrependimentos passam e outros ficam, e quando ele ajuda em vez de só pesar. A pergunta deste artigo é: o que fazer com o peso do que não foi?

A máquina do "e se"

O arrependimento depende de uma capacidade chamada pensamento contrafactual. É a habilidade de imaginar alternativas ao que aconteceu: o que teria sido se a escolha, a palavra ou o momento fossem outros.

Em 2008, Kai Epstude e Neal Roese publicaram uma versão atualizada da chamada teoria funcional do pensamento contrafactual. Segundo ela, esses pensamentos são mais bem explicados pelo papel que têm em regular o comportamento e melhorar o desempenho.

Os autores descrevem dois caminhos. Num, o pensamento "e se" traz uma informação específica que muda a intenção de agir diferente da próxima vez. No outro, ele age de modo indireto, pelo humor, pela motivação ou pela disposição mental. O mesmo trabalho aponta a utilidade da teoria para entender a relação entre pensamento contrafactual e saúde mental.

Do que as pessoas mais se arrependem

Em 2005, Neal Roese e Amy Summerville reuniram onze estudos que pediam às pessoas para ordenar seus maiores arrependimentos. Os seis primeiros, em ordem, foram: educação, carreira, relacionamentos amorosos, criação dos filhos, o próprio eu e o lazer.

A explicação que os autores propõem é interessante. Os maiores arrependimentos aparecem nas áreas da vida em que a pessoa percebe mais oportunidade, ou seja, onde enxerga chances concretas de mudança, crescimento e renovação.

Isso muda o sentido da emoção. O arrependimento não aparece onde nada poderia ter sido diferente. Ele aparece justamente onde havia, ou ainda há, alguma possibilidade.

Ação e omissão: um padrão no tempo

Em 1995, Thomas Gilovich e Victoria Medvec revisaram evidências de que o arrependimento segue um padrão temporal. As ações, ou erros de fazer, geram mais arrependimento no curto prazo. As omissões, ou erros de não fazer, geram mais arrependimento no longo prazo.

Os autores propõem que esse padrão tem várias causas. Há processos que diminuem com o tempo a dor de uma ação arrependida, processos que aumentam com o tempo a dor de uma omissão, e diferenças no quanto cada tipo de arrependimento continua vindo à memória.

Repare que é um padrão médio, observado em estudos, e não uma lei para cada pessoa. Há ações de que alguém se arrepende a vida inteira, e omissões que ninguém lembra depois de uma semana.

O eu que poderia ter sido

Em 2018, Shai Davidai e Thomas Gilovich olharam para outro aspecto dos arrependimentos mais duradouros: a relação com a imagem que a pessoa tem de si. Em seis estudos, os arrependimentos que mais duravam vinham mais da distância entre o eu real e o eu ideal do que da distância entre o eu real e o eu obrigatório.

O eu ideal reúne metas e aspirações. O eu obrigatório reúne deveres e responsabilidades. Os autores encontraram indícios de que as pessoas agem mais rápido para lidar com as falhas nos deveres do que com as falhas nas aspirações.

Com isso, os arrependimentos ligados às aspirações ficam mais tempo sem solução. Na formulação dos autores, as pessoas tendem a se arrepender mais de não terem sido tudo o que poderiam ser do que de não terem sido tudo o que deveriam ser.

O que o cérebro mostra

Em 2004, Nathalie Camille, Angela Sirigu e colegas publicaram na revista Science um estudo com um jogo simples de apostas. Os voluntários saudáveis relataram emoções compatíveis com o pensamento contrafactual: escolhiam de forma a diminuir o arrependimento futuro e aprendiam com a experiência emocional.

Pacientes com lesões no córtex orbitofrontal, uma região da parte da frente e de baixo do cérebro, não relataram arrependimento e não anteciparam as consequências negativas das próprias escolhas. Os autores concluíram que essa região tem papel fundamental em mediar a experiência de arrependimento.

Em 2005, Giorgio Coricelli e colegas publicaram na Nature Neuroscience um estudo de neuroimagem sobre o arrependimento e a tendência a evitá-lo nas escolhas. Esses trabalhos mostram que o arrependimento tem base no cérebro e participa das decisões. Isso é diferente de dizer que uma região é "a sede" do arrependimento, ou que ela "para de disparar" quando a lição é aprendida. Essas frases vão além dos dados.

Arrependimento que ensina

O estudo de Camille mostra algo que costuma passar despercebido: os voluntários saudáveis aprendiam com a experiência emocional do arrependimento, e os pacientes sem essa experiência não antecipavam as consequências ruins das escolhas.

A teoria funcional de Epstude e Roese vai na mesma direção. O pensamento "e se" existe, em boa parte, para ajustar o comportamento futuro. Nesse sentido, sentir arrependimento não é um defeito. É um sinal de que algo importava.

O problema começa quando o "e se" deixa de apontar para a próxima vez e passa a girar em torno do que já não pode mudar. Aí o arrependimento deixa de ensinar e vira repetição. Sobre esse giro, há mais em A Vergonha Que Só Você Ainda Lembra.

Como as pessoas lidam com o arrependimento

Em 2007, Marcel Zeelenberg e Rik Pieters propuseram uma teoria da regulação do arrependimento. Ela distingue o arrependimento de emoções próximas, descreve em que condições ele é sentido e quais aspectos de uma decisão são lamentados, e identifica estratégias que as pessoas usam para lidar tanto com o arrependimento antecipado quanto com o já vivido.

Os autores apresentam a teoria também como um mapa das lacunas no conhecimento. Ou seja, ainda se sabe pouco sobre quais estratégias funcionam melhor para quem, e em que situação.

Mesmo assim, os estudos anteriores oferecem pistas úteis. Se os arrependimentos ligados às aspirações duram mais porque ficam sem resposta, uma forma de diminuí-los pode ser agir sobre eles no presente, quando ainda houver oportunidade.

O que a evidência ainda não sabe

  • O padrão de ação e omissão é uma tendência média, e varia conforme a pessoa, a situação e o tempo que passou.
  • Os estudos de lesão cerebral envolvem poucos pacientes e mostram que uma região é necessária, não que ela explique sozinha a emoção.
  • Ainda se sabe pouco sobre quais estratégias de regulação do arrependimento funcionam melhor.
  • Grande parte das pesquisas usa relatos e memórias, que também se transformam com o tempo.
  • Os estudos descrevem tendências de grupo e não dizem como uma pessoa específica deve lidar com um arrependimento concreto.

Resumo: o que a ciência sustenta

O arrependimento nasce do pensamento contrafactual, que tem função de ajustar o comportamento. Os maiores arrependimentos aparecem nas áreas em que a pessoa vê mais oportunidade, como educação, carreira e relacionamentos. Em média, ações pesam mais no curto prazo e omissões no longo prazo. Os arrependimentos mais duradouros tendem a envolver aspirações não alcançadas, que ficam mais tempo sem resposta. Pacientes com lesão no córtex orbitofrontal não relataram arrependimento nem anteciparam as consequências das escolhas. E as estratégias para lidar com o arrependimento ainda são pouco estudadas.

O peso do que não foi é, muitas vezes, o sinal do que ainda importa. Nem todo caminho perdido pode ser retomado. Mas alguns ainda podem, de outra forma.

Exercício prático: do "e se" ao "e agora"

Inspirado na teoria funcional do pensamento contrafactual de Epstude e Roese e no estudo de Davidai e Gilovich sobre o eu ideal. Leva cerca de quinze minutos, com papel e caneta.

  1. Escreva o arrependimento. Uma frase só, começando por "E se eu tivesse…".
  2. Classifique. Foi algo que você fez ou algo que deixou de fazer? Tem mais a ver com um dever ou com uma aspiração?
  3. Extraia a informação. O que esse "e se" diz sobre o que você valoriza? Escreva em uma linha.
  4. Procure a oportunidade que resta. Existe alguma forma, mesmo parcial ou diferente, de agir sobre isso hoje?
  5. Troque o "e se" por um "e agora". Escreva uma ação pequena e concreta para a próxima semana. Se não houver nenhuma, escreva o que você quer fazer diferente numa situação parecida no futuro.

O exercício serve para reflexão, não para diagnóstico. Se um arrependimento ocupa seus pensamentos de forma persistente e traz sofrimento intenso, converse com um profissional de saúde mental.


Aprofunde seu Conhecimento


Referências Científicas

  • Camille, N., Coricelli, G., Sallet, J., Pradat-Diehl, P., Duhamel, J.-R., & Sirigu, A. (2004). The involvement of the orbitofrontal cortex in the experience of regret. Science, 304(5674), 1167-1170. DOI: 10.1126/science.1094550
  • Coricelli, G., Critchley, H. D., Joffily, M., O'Doherty, J. P., Sirigu, A., & Dolan, R. J. (2005). Regret and its avoidance: A neuroimaging study of choice behavior. Nature Neuroscience, 8(9), 1255-1262. DOI: 10.1038/nn1514
  • Davidai, S., & Gilovich, T. (2018). The ideal road not taken: The self-discrepancies involved in people’s most enduring regrets. Emotion, 18(3), 439-452. DOI: 10.1037/emo0000326
  • Epstude, K., & Roese, N. J. (2008). The functional theory of counterfactual thinking. Personality and Social Psychology Review, 12(2), 168-192. DOI: 10.1177/1088868308316091
  • Gilovich, T., & Medvec, V. H. (1995). The experience of regret: What, when, and why. Psychological Review, 102(2), 379-395. DOI: 10.1037/0033-295X.102.2.379
  • Roese, N. J., & Summerville, A. (2005). What we regret most... and why. Personality and Social Psychology Bulletin, 31(9), 1273-1285. DOI: 10.1177/0146167205274693
  • Zeelenberg, M., & Pieters, R. (2007). A theory of regret regulation 1.0. Journal of Consumer Psychology, 17(1), 3-18. DOI: 10.1207/s15327663jcp1701_3

Aviso Legal e Isenção de Responsabilidade

Este conteúdo tem finalidade exclusivamente informativa e educacional e não substitui avaliação, diagnóstico ou acompanhamento de psicólogos, psiquiatras ou outros profissionais de saúde. Se pensamentos repetitivos sobre o passado estiverem trazendo sofrimento intenso ou persistente, procure ajuda profissional. No Brasil, o CVV atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia.

Os estudos citados descrevem tendências de grupo, em amostras específicas. Os estudos com pacientes com lesão cerebral envolvem poucas pessoas e mostram participação de uma região, não uma explicação completa da emoção.

Escrito e editado por Bralilton Gomes, que publica sob o nome editorial NOUS. Parnamirim, Rio Grande do Norte.

Não é médico, psicólogo nem pesquisador: é curador de evidência científica. Cada referência citada é conferida antes da publicação, e os textos são produzidos com apoio de inteligência artificial sob revisão humana. Método completo.

Encontrou um erro? Avise aqui — correções têm prioridade.

Nenhum comentário: