Por NOUS · A Lei Universal
"Pensa positivo." Pouca frase é dita com tanta boa intenção e ajuda tão pouco na hora em que alguém está mal. E, ainda assim, a pesquisa mostra que o jeito como a gente pensa sobre o que acontece faz diferença real: no humor, nas relações e até, ao longo de décadas, na saúde.
As duas coisas são verdade ao mesmo tempo. A pergunta deste artigo é: que tipo de pensamento positivo a ciência sustenta, e que tipo sai pela culatra?
Três coisas diferentes com o mesmo nome
"Pensamento positivo" junta, na conversa do dia a dia, coisas que a psicologia separa.
A primeira são as emoções positivas: alegria, interesse, gratidão, calma. A segunda é o otimismo: a expectativa de que as coisas tendem a dar certo. A terceira é o jeito de explicar o que dá errado: se você vê um tropeço como algo passageiro e específico, ou como prova de que tudo vai sempre dar errado.
Existe ainda uma quarta coisa, que costuma vir junto e que a pesquisa não recomenda: negar o que está ruim, engolir o que se sente e fingir que está tudo bem. É o que hoje se chama de positividade tóxica.
Emoções positivas ampliam o campo de visão
Em 2001, a psicóloga Barbara Fredrickson descreveu na revista American Psychologist a teoria "ampliar e construir". A ideia é que as emoções positivas ampliam por um momento o repertório de pensamentos e ações de uma pessoa. E que essa ampliação, repetida, ajudaria a construir recursos duradouros: físicos, intelectuais, sociais e psicológicos. No mesmo artigo, ela apresentou a evidência preliminar e apontou as perguntas que ainda faltava testar.
Em 2005, Fredrickson e Christine Branigan testaram a primeira parte. Em dois experimentos, 104 universitários assistiram a trechos de filmes escolhidos para provocar diversão, contentamento, neutralidade, raiva ou ansiedade.
Depois, fizeram duas tarefas. Na primeira, olhavam figuras e indicavam se as viam pelo conjunto ou pelos detalhes. Na segunda, completavam frases sobre o que tinham vontade de fazer naquele momento. As emoções positivas ampliaram a atenção, no primeiro experimento, e a lista de coisas que as pessoas queriam fazer, no segundo. As emoções negativas encolheram essa lista em comparação com o filme neutro.
Faz sentido. O medo e a raiva estreitam o foco para lidar com uma ameaça. A diversão e a calma abrem espaço para olhar em volta. Uma não é melhor que a outra: cada uma serve a uma situação.
A proporção mágica que não existia
A teoria ficou famosa também por um número. Em 2005, um artigo de Fredrickson e Losada afirmou ter demonstrado uma proporção mínima crítica: 2,9013 emoções positivas para cada negativa. A ideia se espalhou como "a regra dos três para um".
Em 2013, Nicholas Brown, Alan Sokal e Harris Friedman examinaram a matemática por trás dessa conta, que usava equações tiradas da física dos fluidos. Concluíram que não havia justificativa para usar essas equações em emoções humanas, que a aplicação delas tinha erros fundamentais e que a afirmação de uma proporção mínima de 2,9013 não tinha fundamento. A revista publicou depois uma correção formal do artigo original.
Isso não derruba a ideia de que emoções positivas ampliam a atenção, que tem experimentos próprios. Derruba a promessa de uma fórmula exata. Não existe uma cota de alegria a cumprir por dia.
Como você explica o que deu errado
O psicólogo Martin Seligman dedicou boa parte da carreira ao que ele chama de estilo explicativo: o jeito habitual de explicar para si mesmo os acontecimentos ruins.
O estilo pessimista vê a causa do problema como estável ("vai ser sempre assim"), global ("estraga tudo") e interna ("o problema sou eu"). O estilo otimista vê a mesma coisa como passageira, limitada àquela situação e com causas que não estão todas na pessoa.
Em 1988, Christopher Peterson, Seligman e George Vaillant publicaram um dos estudos mais longos sobre isso. Eles extraíram o estilo explicativo de questionários respondidos aos 25 anos por 99 formados de Harvard das turmas de 1942 a 1944. Depois, compararam com a saúde dessas pessoas medida em exames médicos dos 30 aos 60 anos.
O estilo pessimista aos 25 anos previu saúde pior entre os 45 e os 60, mesmo levando em conta a saúde física e mental no começo. É um grupo pequeno e muito específico. Mas o estudo acompanhou as mesmas pessoas por 35 anos.
Otimismo e saúde: o que os números mostram
Em 2019, Alan Rozanski e colegas reuniram, na revista JAMA Network Open, 15 estudos com 229.391 participantes, acompanhados em média por 13,8 anos.
Pessoas mais otimistas tiveram um risco cerca de 35% menor de eventos cardiovasculares, como infarto e AVC, e um risco cerca de 14% menor de morte por qualquer causa no período. Os resultados se mantiveram quando os autores levaram em conta a depressão e outros fatores.
Dois cuidados importam. São estudos de observação, que mostram associação e não provam que o otimismo cause a proteção. E os resultados variaram bastante de um estudo para outro. Os próprios autores pedem estudos sobre os mecanismos e sobre se aumentar o otimismo traz esse benefício.
Otimismo, aqui, é expectativa sobre o futuro, não fantasia. A diferença entre esperar que algo dê certo e imaginar que já deu, e por que a segunda pode tirar energia, está em Lei da Atração: o que a Neurociência Revela sobre o Poder dos Pensamentos.
Quando forçar o positivo sai pela culatra
Se pensar positivo ajuda, esconder o negativo deveria ajudar também. A pesquisa diz que não.
Em 2003, os psicólogos James Gross e Oliver John compararam em cinco estudos duas formas de lidar com as emoções. Uma é a supressão: segurar a emoção para que ela não apareça. A outra é a reavaliação: mudar a forma de interpretar a situação.
Quem costumava reavaliar sentia e demonstrava mais emoção positiva e menos negativa, se relacionava melhor com os outros e tinha mais bem-estar. Quem costumava suprimir demonstrava menos emoção positiva, mas sentia mais emoção negativa, se relacionava pior e tinha menos bem-estar. Esconder não fez a emoção ruim ir embora.
Em 2018, Brett Ford, Iris Mauss e colegas foram além. Em estudos de laboratório, de diário e de acompanhamento ao longo de seis meses, as pessoas que costumavam aceitar as próprias emoções e pensamentos difíceis, sem julgá-los, tiveram melhor saúde psicológica. Uma parte da explicação foi que, diante de situações estressantes, elas sentiam menos emoção negativa.
Parece um paradoxo, mas não é. Brigar com o que se sente costuma somar uma segunda camada de sofrimento à primeira: a raiva de estar triste, a culpa por estar ansioso.
Repetir frases positivas sobre si mesmo também tem limites. Há um estudo em que elas pioraram o humor justamente de quem tinha autoestima baixa, contado em detalhe no artigo sobre a Lei da Atração.
Reinterpretar não é negar
Juntando os achados, a diferença entre o pensamento positivo que funciona e o que atrapalha fica clara.
- Negar é pensar: não aconteceu nada, está tudo ótimo. A emoção fica, só que escondida.
- Aceitar é pensar: isso me deixou mal, e tudo bem sentir isso.
- Reinterpretar é pensar: isso me deixou mal; é uma situação específica, não a minha vida inteira, e há alguma coisa que eu posso fazer.
A reinterpretação vem depois da aceitação, não no lugar dela. E ela não exige acreditar em algo falso. Exige procurar uma leitura da situação que seja verdadeira e que deixe espaço para agir.
As práticas que foram testadas
Em 2005, Seligman, Tracy Steen, Nansook Park e Peterson testaram pela internet cinco exercícios que prometiam aumentar a felicidade, contra um exercício de controle, com sorteio entre os grupos. Três dos cinco aumentaram a felicidade e reduziram sintomas depressivos de forma duradoura. Os outros dois não.
O dado mais útil do estudo talvez seja esse: nem todo exercício "positivo" funciona. O tamanho real do efeito dessas práticas, quando muitos estudos são somados, está em A Neurociência da Felicidade: Como o Cérebro Produz Bem-Estar Real.
O que a evidência ainda não sabe
- Otimismo e saúde andam juntos, mas não se sabe o quanto um causa o outro. Pessoas mais saudáveis também podem ter mais motivos para ser otimistas.
- Os experimentos com filmes medem minutos. A parte de "construir recursos" ao longo do tempo tem menos evidência do que a parte de "ampliar".
- Não existe proporção ideal entre emoções boas e ruins. A fórmula mais famosa foi derrubada.
- O estudo de 35 anos é pequeno. 99 pessoas de uma única universidade, em uma época específica.
- Muitos dados vêm de questionários. As pessoas relatam o que sentem e como costumam reagir, com as falhas de memória que isso traz.
- Tudo descreve tendências de grupo. Nenhum desses estudos diz como você deveria se sentir.
Quando procurar ajuda
Nenhuma forma de pensar substitui tratamento. Se a tristeza, o desânimo ou a ansiedade persistem por semanas, atrapalham o dia a dia ou vêm com a sensação de que a vida não vale a pena, procure um profissional de saúde mental. Pensar positivo não é obrigação, e não conseguir não é fracasso. No Brasil, o CVV atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia.
Exercício prático: reinterpretar sem negar
Inspirado nos estudos de Gross e John, de Ford e colegas e no estilo explicativo de Seligman. Leva cerca de dez minutos, com papel e caneta.
- Escolha uma situação recente que te incomodou. Uma só, concreta.
- Dê nome ao que você sentiu, sem se corrigir. "Fiquei frustrado." "Fiquei com vergonha." Não escreva "não devia ter sentido isso".
- Escreva como você explicou o que aconteceu. Repare se apareceram as três marcas do estilo pessimista: "sempre", "tudo", "o problema sou eu".
- Procure uma explicação que também seja verdadeira e seja mais específica: o que foi desta vez, nesta situação, e o que não dependia só de você.
- Escreva um passo pequeno que esteja ao seu alcance nos próximos dias.
Se no passo 4 você não encontrar nada verdadeiro, não invente. Aceitar que algo foi ruim também é um resultado. O exercício serve para reflexão, não para diagnóstico.
Aprofunde seu Conhecimento
- Lei da Atração: o que a Neurociência Revela sobre o Poder dos Pensamentos
- Esperança: O Que Nos Mantém em Pé
- A Neurociência da Felicidade: Como o Cérebro Produz Bem-Estar Real
- Cortisol: o Que Acontece no Seu Cérebro Quando Você Vive Sob Estresse Crônico
Referências Científicas
- Brown, N. J. L., Sokal, A. D., & Friedman, H. L. (2013). The complex dynamics of wishful thinking: The critical positivity ratio. American Psychologist, 68(9), 801-813. DOI: 10.1037/a0032850
- Ford, B. Q., Lam, P., John, O. P., & Mauss, I. B. (2018). The psychological health benefits of accepting negative emotions and thoughts: Laboratory, diary, and longitudinal evidence. Journal of Personality and Social Psychology, 115(6), 1075-1092. DOI: 10.1037/pspp0000157
- Fredrickson, B. L. (2001). The role of positive emotions in positive psychology: The broaden-and-build theory of positive emotions. American Psychologist, 56(3), 218-226. DOI: 10.1037/0003-066X.56.3.218
- Fredrickson, B. L., & Branigan, C. (2005). Positive emotions broaden the scope of attention and thought-action repertoires. Cognition and Emotion, 19(3), 313-332. DOI: 10.1080/02699930441000238
- Gross, J. J., & John, O. P. (2003). Individual differences in two emotion regulation processes: Implications for affect, relationships, and well-being. Journal of Personality and Social Psychology, 85(2), 348-362. DOI: 10.1037/0022-3514.85.2.348
- Peterson, C., Seligman, M. E. P., & Vaillant, G. E. (1988). Pessimistic explanatory style is a risk factor for physical illness: A thirty-five-year longitudinal study. Journal of Personality and Social Psychology, 55(1), 23-27. DOI: 10.1037/0022-3514.55.1.23
- Rozanski, A., Bavishi, C., Kubzansky, L. D., & Cohen, R. (2019). Association of Optimism With Cardiovascular Events and All-Cause Mortality: A Systematic Review and Meta-analysis. JAMA Network Open, 2(9), e1912200. DOI: 10.1001/jamanetworkopen.2019.12200
- Seligman, M. E. P., Steen, T. A., Park, N., & Peterson, C. (2005). Positive Psychology Progress: Empirical Validation of Interventions. American Psychologist, 60(5), 410-421. DOI: 10.1037/0003-066X.60.5.410
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Este conteúdo tem finalidade exclusivamente informativa e educacional e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento por psicólogos, psiquiatras ou outros profissionais de saúde. Nenhuma forma de pensar substitui tratamento. Se o sofrimento for intenso ou persistente, procure ajuda profissional. No Brasil, o CVV atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia.
Os estudos citados descrevem tendências de grupo, em amostras específicas. As associações entre otimismo e saúde vêm de estudos de observação e não provam causa.

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